Eu ia encontrá-la, minha doce e tão cativa menina. Ela me esperava lá e eu aguardava impaciente sua chegada, antes mesmo de sair, com a fronte tomada da inospitalidade de uma estátua, com um sorriso automatizado, estrategicamente posto para cumprimento da função formal de cumprimentar as damas e cavalheiros que já antes de mim se acomodavam naquela embarcação. Tão automatizada era minha resposta que concordava dizendo uma série de "sins" e "com certezas", sobre uma crítica de um passageiro à respeito das pixações em muros, o que no caso eu tinha uma opinião contrária, mas em relação ao que ele dizia... Eu pensava nos muros de Araraquara com lindas imagens pintadas, com fotografias de paisagens e de figuras que só percebemos o que exatamente são após longos meses - ao passar pela manhã e à tarde - olhando para o muro pintado e "caracas mesmo!" Ficamos adimirados com a descoberta. E emendava o devaneio aos habitantes dessa tal cidade, pessoas com cabelos de penteados estranhos, outros cabelos estranhamente despenteados, bares com jukebox e as pessoas conhecedoras de cantigas animadas. De um muro pintado era possível imaginar toda a beleza que havia por aquelas terras onde todos eram belos como nas peças de teatro. Por um momento, o sacolejo do ônibus me retomava ao odor insalubre do banheiro misturado com o cheiro adocicado dos cigarros inconscientemente fumados sob protesto contra a estirpe tradicional da proibição. Tudo isso me enjoava a ponto de tirar-me a fome, o sono, e aumentar-me a tensão. Minha esperança, como de costume cogitava uma possibilidade impossível, no impossível já consumada: chegar à capital do país e lá encontrá-la - que sairia de sua cidade somente dois dias depois - me esperando ou chegando ao planalto uns minutos logo após meu desembarque. Toda essa loucura dava suporte para seguir a viagem. Alguns hospedeiros daquele navio supunham ser eu algo do tipo anti-social ou então diziam "coitado, ele parece tão triste", outros mais despojados me animavam para que me sentisse normal "e aí! está tranquilo... só curtindo a paisagem!" Eu por minha vez, concordava, mas dizendo nem que sim nem que não, compreendendo comigo mesmo a impossibilidade de lhes dar qualquer tipo de explicação. O horizonte era imenso, enorme e sedento. No ar seco do cerrado, as nuvens pousavam tão próximas, no sentido de se aconchegar. Esfarelava-se a terra em pequeninas pedras, como cacos de outrora, formas de recriação, modificando-se infinitamente, mesmo que perdendo metade do total que se achavam a vivenciar. Era esse o guiso que sinalizava a estrada, que pulsava brilhante a muito além de qualquer pulsar em movimento cardíaco e fazia sentir minha alma acompanhar o ônibus pelo lado de fora daquela aterrorizante janela, aterrorizante de um vidro liso, feito para não abrir. O calor extravasava assim num bend tão agudo que sinalizava o tom, jogado à sol à pino, espremia as pálpebras e enrugava a testa resignando quase à todos os olhos, ou ao menos àqueles olhos famintos que deslumbravam tantas vistas de pontos diferentes e que tentavam manter-se alertas à qualquer movimento e qualquer parada, a verem apenas com uns poucos porcentos da visão. Essas músicas - prefiro chamar de nuvens - quase a se tocarem, mesmo separadas pela medida exata da distância que se poderia chegar sem que se esbarrassem e deixassem correr lágrimas, não podiam nunca tocarem-se seguidamente, pois estas se mantinham cada qual em seu lugar a preservar seu íntimo, sua mais completa liberdade de amar. O calor e o vento ríspido de fora eram mais simples, mais lépidos, lá dentro - à bordo - haviam forças, como uma panela borbulhante de coisas explodindo sobre as outras, num egoísmo celenterado pela ânsia de tomar a fala. Do meu lugar - estacionado com minha caravana de pensamentos itinerantes - ouvia o choque das palavras de ordem, dos gritos de adesão, dos blocos carnavalescos e das marchinhas parodiadas dos programas de auditório. Com tudo isso, por mais que pareça incrível, no sentido de não se acreditar, a monotonia em suma era inquebrantável e roía áspera igual acontece no "r" do francês quando evocado à garganta seca. Brasília fez-me chorar lágrimas tão pesadas quanto os marulhos de uma descarga, quase vermelhas quanto à terra, tão alaranjadas quanto o pôr-do-sol. Sol, sol e sol... Sol que no meio do dia fazia reluzir janelas de apartamentos e prédios inteiros na tentativa de supor vida ao concreto e ao asfalto do grande eixo que dava asas à cidade. Eu a conhecia e também à sua natureza morta, não era preciso que a escondesse entre o cinza veredas e a placidez blanca daquilo que era silêncio e desgaste, nesse momento eu esganava a supressão de Brasília que me fazia passar por tolo nas suas ruas certas, construções retas, na ponte arqueada que levava as casas dos colonos para os escritórios e os escritórios para as mesmas casas, fazendo dos halls do poder público uma extensão de seus quintais. No parque murcho e perfeito... Brasília não sabia que o que eu mais odiava era a perfeição. Eu a enganava achando tudo lindo, embolçando meus compromissos, admirando suas linhas escritas num museu banal. Não tenho raiva não. Brasília - isso é certo - queria me ver tremendo, coberto de medo melancólico e solitário, quebrar meu duro coração, amolecer-me com seus barulhos de martelo. Sublimei esse sentimento por conta de minha barraca de lona azul e amarela, fincada no pátio à sombra de uma grande caixa d'água amarelo cor mostarda, entre árvores e pombos, entre os silvos da campainha que sinalizava o recreio dos escolares e que enquanto durava pausava toda e qualquer conversação. Élid chegara na minha hora mais remota, quando os sentimentos eram mais afetados pela nostalgia e pela profusão de uma conversa com o jardineiro tímido e muito quieto que parecia comunicar-se com suas orquídeas, trepadeiras e as libélulas que povoavam esse lugar acomodado numa espécie de recanto, pelos imensos pilares de cimento que se enfileiravam formando grande curva, pelo extenso passeio que eu deslizava na languidez das sombras das árvores em coplô com o piso gelado. Ao final do boulevard estreito vim a ter-me com ela no desencontro de quem encontra o inesperado, nos mandamos para fora dali. Em minha lona de camarim de picadeiro circense - assim agora eu via minha barraca - passei longas e longínquas horas inesquecíveis, abraçado num sentimento fotográfico do segundo eterno de vida fecunda aliviada da altivez do ar. Aquela flor de corpo fértil que eu despia tinha o aconchego belo do seio materno e a maravilha louca que existe na revolução, delicadeza feminina nos olhos firmes de mulher suspirando fundo e dobrando a nuca com a mesma naturalidade que, acima de nós, possuía o céu no seu tom de tarde róseo e dourado. Brasília fazia festa para nos separar, lançava olhares e criava entraves, enquanto nós, abríamos nossas vidas e sem soltar as mãos nos confessávamos tão amantes, como pedras imantadas dividíamos o peso que tem a eternidade e a leveza que o momento traz. Élid reclamava o frio de uma Brasília esmalte, gelidez que eu lhe apontando o sol, frisava por não existir. Ela estava certa, pois sua lente exata se desrregulava ante a me focar, eu me desviava no meu medo concreto das horas passantes, sobretudo da aproximação do fim. Nosso abstrato; longas cartas, trilhas românticas, imagens, poesias noturnas, amor, tanto amor e só o amor... tanto é abstrato tudo isso que alguém escolheu Brasília, no meio do nada e concreto para nos concretizar; esplendoroso amor até o esplendor do dia, do levante de girassóis, do romper da casca do ovo, do sol a alimentar nosso jardim de inverno e a despertar os vizinhos próximos que não entendiam o motivo de uma ibernação. Inventávamos sinônimos e outros adjetivos para aquela vida pragmática que nos tinha no seu interior mais truculento como desbravadores andantes pelas pacatas ruas de um domingo que já amanhecia triste.
Flor de mil carinhos, de perfume jasmínico, Brasília a fez tão quieta, tão longe, imersa nos seus olhares perdidos que chegava a censurar-me da beleza daquele céu que agora sei que só era belo, pois contrastava sobre à mísera natureza que possuía a cidade, mas no entanto fomos salvos. Élid tinha em seu nome Brasília: o "É" amplo acentuado, seguido de um "l" alto e magro, caindo para um "i" com pingado sutil, finalizando após com o "d" de base arredondada que sugeria breve um ponto final. Brasília, quem sabe um dia tu decolas e vais viver deserta, solitária e satisfeita. Minha solidez foi sobre ti tão forte que na despedida não derramei mais lágrimas, pude partir seguro que iria me deixar. Hoje me acordo assustado por não ver Brasília; o concretismo delicado de minha paixão.