Terça-feira, Julho 14, 2009

Antiquado

Atrasados eram os dias
O tempo
E as horas
O carro que vinha
Desafiava-o com métrica nos olhos
E atravessava a pista
Saltando os passos
Vencendo a hora
Chegando a tempo
Três degraus
Credenciado na roleta
Fecha-se a porta
A expressão sustenida no olhar da mulher calada
E de estrada a fora
Seguir viagem
Acordar pesado...
Como nesses dias frios, nublados ou chuvosos

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Para abrir os olhos

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Choque de ordem

Sentada à frente, como se ela o forçasse a desejá-la... no arrebatamento daquela ansiedade cultuada no perigo, fazia-lhe o pedido para dominá-la. Sabia ele sem medo que o domínio era todo dela. Quando a saliva faltava à boca, era necessário lamber os lábios, surgia áspera, da língua para a alma uma sensação de bebida doce e amarga. Um gosto exótico, caótico, ardente e corrompido. Ela era de ares tão infames que distorcia imprudentemente a leitura que ele sendo esforçado, tentava esticar até o final de um parágrafo entre as recorrentes interrupções de levantar os olhos sem movimentar a cabeça para olhá-la, e ali mesmo, em meio aos livros e a arrumação uniforme das mesas, acabar de vez com a apreensão do suor da testa e das moléstias mudanças de posição na cadeira. Ela escapava por uma serenidade ensaiada, medidamente precisa, num sorriso para o nada ou recompondo-se, tomava pela mão a caneta por uma rigidez ingênua como a que se vê nos olhos grandes arregalados dos céticos perscrutando desvelar mistérios dos quais não acreditam. Ou no inábil e aspirante pescador que tenta olhar fixamente a água para ver se há peixes. E mesmo assim ele a queria, ele a queria no seu mais íntimo, onde a eletricidade tanto requer contato, onde há ânsia pelo fluir eterno. Sabia também, que muito pelo contrário, não era amor o que sentia. Percebia nas espreguiçadas, no despir do casaco preto que destacava-lhe os seios, que no movimento descuidado egastalhou nos brincos, tricotando nos cabelos. Era possível perceber em tudo isso o sentimento incômodo, assim como ela o sentia. Uma aflição vista nos olhos de quem assalta à mão armada, quem assusta porque está assutado, de que seduz porque quer ser seduzida. Ela só pedia que lhe dessem pena. De um outro lado, noutra cidade, um outro dia, a ingenuidade surgia na vaidade leviana que oferecia - cheia de exibir-se - o seu lindo maço de Camel azul e a inscrição em espanhol sobre o terrível mal à salud. Mal este do qual provou ele também, claro que era vaidade, entretanto, da necessidade de fumar, diferentemente do tesão besteiro e irrisório que era comemorar o maço azul, como um presente dos deuses ou um importado artefato argentino. Ela deslizava na risada revelada pelo pano de seda da embriaguês, atrás de tudo isso sucumbia como uma enferma apavorada e pela janela do carro tentava botar para fora suas mágoas. Mal pior viria a entrar pela cortina sob o calor da manhã que já começava a dar sinais, sugerindo agora o dia; deparar-se-ia de frente com toda angústia coberta de sobriedade, sem os devaneios torpes para enfeitar as excedentes lembranças da noite passada. Da parte dele, a atitude mais humilde e mais severa foi pedir-lhe um cigarro ao fim da noite, motivo de orgulho e pavor dentro de si mesmo.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

A metamorfose

O que faço é reviver o casulo
O útero tão reconfortante
Precipito o início
Olho de lá pra cá
Detectar se há algo de errado
Que asa foi quebrada pelo vento
Que pata me foi arrancada
Minha leveza tem sido esguia
E me equilibrar não tem sido fácil
Mundo de carnívoros tem inseto como iguaria
Obstante que é absurdo pensar no que seria
sem o consolo das lindas flores
Por isso a metamorfose...

Domingo, Junho 28, 2009

Grande Roda

Prismas, bandeiras, balões
A roda gira em caracol
E a dança está no sorriso
Na barra da saia que gira
Na gravata que voa à toa
São bocas tão crianças
O regresso infante das alegrias
No espaço do passo entre o novo e o velho
Está o tempo rodando no círculo da fogueira com o fogo
A grande roda...
Espáduas em arcos, fitas e laços
Entrelaçados
Mão suada
Dedos finos, desajeitados, amarrotados
Vão se arrumando no toque cantante
No fim fica permitido o silêncio das vozes
Vem o clique da foto
Estampada é a cena, porta retrato, porta ao passado
E a criança corre
A criança corre
Corre, Percorre, transpassa, ultrapassa
As paredes, escadas, as pernas dos homens em pé
Rasante pela mesa à baixo
Madames em prosa
Abriu-se a cortina,
derrubada a toalha
Acontece aqui um espetáculo
Mundo mágico
Descortina a noite um dia próspero

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Caminhando "No caminho de Swann"

Swann amava o artista e sua arte. Odette tinha ingenuamente, tanto enquanto certeza sua, de que Swann apenas queria sê-los. Digo-a ingênua, não só a habilidade que moldura de uma maneira diferente as mãos, aliás, muito além disso, e nem mais moldar-se daquela mesma forma e incorporar aquela fantástica natureza. Swann, sabia ele que era feito de todas as coisas, só poderia querer em ser a si mesmo, sem mesmo o nome de Narciso.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Descobrindo

Digo que enquanto pairava à beira do abismo, ele era tomado por uma sensação de flores, um desconforto absoluto, seu estado de vertigem de quem arranca pétalas. Sensível de morrer, aterrorizado pela sua vida humana. Tinha ele, cuidados de bicho. De um pulo leve, preso no giro da mão na alça da porta até os pés alcançarem o chão, tocou-o com mérito espetacular enquanto as janelas num movimento de esteira lhe mostravam rapidamente a formosa diversidade urbana através das caras sonolentas que olhavam pelo vidro, e o ônibus carregando toda essa riqueza, abandonava ali seu ponto. Fumando…, a fumaça mesclada ao olhar vago, infuso, trazia a intenção de sinalizar o veredito que lhe tinha propriamente dado ao levantar-se pesado de mistérios: sentenciava a reclusão. E assim começava o dia. Elidiria como o sol, deixava cair a chuva e quando noite, dizia como a lua diz. Queria sentir o frio, mas quanto mais frio, tão só o sentia. Pensava profundamente no que se passava na cabeça do astronauta, mergulhava naquele vazio espacial. Diria a crítica: existencial. Elidiria não como todo mundo diz, não como todo mundo ri, era tão mais humano como o homem bicho. Natural. Desejava ouvir a voz que em sua imaginação era remontada pelas palavras mais usadas por aquela juventude e o sotaque que habitava aquela região, encantou-se ele após tirar do gancho a maravilha que lhe ocorria no final do dia, o contraste das vozes e a surpresa que derrubava por terra o que antes havia sido imaginado, lhe apresentando uma doçura inimaginável na voz. Agora, a falta hoje fatigava, era o dia de uma cor especial, mas de uma aurora impedida – como paralisada por um desastre da natureza – pelo ar cotidiano que soprava pesadamente as mesmas coisas de sempre.