Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Céus de abismos


Profundamente
Uma piscina vazia sem água
Afoga-se então no vazio
No azul profundo de azulejos enferrujados
Atmosfera densa
Calmaria intensa, desmedida

Trazem os olhos céus de abismos
Profundidade eterna e apavorante
Um nada insensato de um parente desconhecido

Na vida íntima que o mundo leva
Ainda há filhos desaparecidos
Estrelas fugidias
Caídas no véu da noite
Dormindo em plena luz do dia

O que se faz é mergulhar em abismos
De profundidade etérea
E cortinas enluaradas
Tão profundamente claras

Por detrás do que é visto

No vão entre cada palavra
Se vão inesperados
Aqueles demais abismados
Adentrando na fenda da língua
À deleitar senão de lugares incomunicáveis:
Verdadeiros céus de abismos

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Prelúdio de primavera

O amor, impossuidor de essência. Ele move-se na mesma indescência marulha do vento, desembestando com o cabelo alinhado e surpreendendo na saia da moça. Um pálido de olhos esbugalhados pronto para rir como um louco ou sentir delicado o canto seguido pela pequenina e tímida caravana de lágrimas de um louco triste. Cumpre mais uma vez o movimento das vagas. É o amor um daqueles que não podendo ter tudo, optara ferozmente pelo nada para não dizer que por nada optara. Resignado por saber dessa não existência de totalidades, é em partes, crente por conhecer, como num ato revelado, num milagre, a beleza do que é "triste" como um aprendizado para adaptar-se, quando não, restam as feridas de tanto fugir da tristeza. O amor ainda é a ventura egóica de habitar-se no outro, para um espírito cigano, é a estrada, é a sorte, feita e refeita no diagrama de estrelas, nas notas discretas da flauta; o amor não tem casa, o amor não mora. Teme-se-o na noite, de paletó e cravo na lapela, é uma figura distinta pelos seus caprichos, vaidades e arrulhos - Ogum e sua armadura com atavios no capacete que esconde a parte divina da face em recorte humano de meia-lua. Passado o azul da noite e sua prata, quando o sol surge rasteiro, há amor em passarinhos, carícias serelepes. Nessa aparição do amarelo dourado, vê-se uma praça escrita à caneta tinteiro com versos saudosistas e ares de uma manhã assobiada alegremente por seus idosos que gracejam nas conversas pendulando sobre foscos tamboretes de madeira. Nesse exato momento de luminosa visita breve que nos faz a primavera, intuímos sobre os sentimentos espontâneos que se inspiram nas vestes curtas e despojadas com vincados que exuberam a silhueta do corpo quando contra este o vento imprimi força e revela-o, e o verde se espalha exultante quase não se contendo de demasiado exuberante para explodir em cores. As estradas tomam ares espectativos bem como nos causa o som tenso e magnífico que, já iniciado o espetáculo, velando pelo algo sagrado, avisa que é chegada a hora de se abrir as cortinas em algum breve instante que exatamente não se sabe quando, mas o prelúdio certifica de que a qualquer momento elas irão se abrir, prelúdio este que climatiza o momento em que se ensaia em pensamento o beijo na mulher já conquistada. Algumas flores apressadas, desprovidas da paciência da espera vão se espalhando pela relva como minúsculas estrelas róseas estampando o manto verde do céu. Diferente de um dia como esses que eu passara, verificando quais as cores predominavam e sentindo com muito medo a interrogação a cerca de ter-me distraído e perdido o abrir das cortinas do espetáculo primaveril, sentamo-nos compartilhados com a grama da praça - neste dia, diferente também era a praça - à espera de um amanhecer que estourasse o sol e explodisse flores na mais potência orgástica, cantamos com a mais forte voz em grupo e afinada, falamos com tom sutil em acordo com a doçura de tantos sorrisos, enfatizando de uma forma muito verdadeira as palavras que curvavam-se para pedir um beijo e beijar a mão de alguém, fazíamos como nunca ninguém fez, mas da forma que nos parecia que desde sempre assim fizemos. Quando terminada a festa e o povo indo embora, agora vinha ainda sonolento com o frio suave que a noite recolhia junto com a cauda do seu manto negro azulado, vinha um sol de remanso acalmar tanta euforia e acalentar escondido entre a névoa, dando uma claridade branca caindo para até o cinza nublado, os corpos tão cansados, sendo silenciados por uma leve e tranquila despedida, após seguindo afastando-se como as flores que sempre morrem e sempre nascem, estando certos de que assim é a vida e de que o amor, este a comove.

Domingo, Agosto 02, 2009

Soneto do tempo

Alçapão circular
Cercado por traços ponteiros - certeiros -
Dividi e unifica ao meio

Sol de janeiro
Firmamento inconstante
Lua fulgurante
Farol de relampejo


Assobio na escuridão
Pássaro cantante em qualquer fenda
Oculta em montanha com encostas escondendo outras encostas


Pedras aplumadas sobre pedras
São assim por diante até tocarem o chão
Chão que segue feito pelas mesmas pedras
Respectiva ordem, sistematização

Um silvo na floresta
Por trás das árvores
Que se poem atrás de outras árvores
Seguidamente até as árvores que não existem mais

Ondas que revelam ondas
Em infinita revelação voluptuosa
A eternidade sob o "leva e traz"
A poética monotonia do que se é vital

Amores que escondem outros amores

O movimento brusco que desloca afoito
À digerir palavras e beber da luz

Soneto do tempo que faz velho e novo
Habitante da caverna polida pela paciência das águas
Renovada na imprudência tempestuosa da seiva que das nuvens cai

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Concretismo

Eu ia encontrá-la, minha doce e tão cativa menina. Ela me esperava lá e eu aguardava impaciente sua chegada, antes mesmo de sair, com a fronte tomada da inospitalidade de uma estátua, com um sorriso automatizado, estrategicamente posto para cumprimento da função formal de cumprimentar as damas e cavalheiros que já antes de mim se acomodavam naquela embarcação. Tão automatizada era minha resposta que concordava dizendo uma série de "sins" e "com certezas", sobre uma crítica de um passageiro à respeito das pixações em muros, o que no caso eu tinha uma opinião contrária, mas em relação ao que ele dizia... Eu pensava nos muros de Araraquara com lindas imagens pintadas, com fotografias de paisagens e de figuras que só percebemos o que exatamente são após longos meses - ao passar pela manhã e à tarde - olhando para o muro pintado e "caracas mesmo!" Ficamos adimirados com a descoberta. E emendava o devaneio aos habitantes dessa tal cidade, pessoas com cabelos de penteados estranhos, outros cabelos estranhamente despenteados, bares com jukebox e as pessoas conhecedoras de cantigas animadas. De um muro pintado era possível imaginar toda a beleza que havia por aquelas terras onde todos eram belos como nas peças de teatro. Por um momento, o sacolejo do ônibus me retomava ao odor insalubre do banheiro misturado com o cheiro adocicado dos cigarros inconscientemente fumados sob protesto contra a estirpe tradicional da proibição. Tudo isso me enjoava a ponto de tirar-me a fome, o sono, e aumentar-me a tensão. Minha esperança, como de costume cogitava uma possibilidade impossível, no impossível já consumada: chegar à capital do país e lá encontrá-la - que sairia de sua cidade somente dois dias depois - me esperando ou chegando ao planalto uns minutos logo após meu desembarque. Toda essa loucura dava suporte para seguir a viagem. Alguns hospedeiros daquele navio supunham ser eu algo do tipo anti-social ou então diziam "coitado, ele parece tão triste", outros mais despojados me animavam para que me sentisse normal "e aí! está tranquilo... só curtindo a paisagem!" Eu por minha vez, concordava, mas dizendo nem que sim nem que não, compreendendo comigo mesmo a impossibilidade de lhes dar qualquer tipo de explicação. O horizonte era imenso, enorme e sedento. No ar seco do cerrado, as nuvens pousavam tão próximas, no sentido de se aconchegar. Esfarelava-se a terra em pequeninas pedras, como cacos de outrora, formas de recriação, modificando-se infinitamente, mesmo que perdendo metade do total que se achavam a vivenciar. Era esse o guiso que sinalizava a estrada, que pulsava brilhante a muito além de qualquer pulsar em movimento cardíaco e fazia sentir minha alma acompanhar o ônibus pelo lado de fora daquela aterrorizante janela, aterrorizante de um vidro liso, feito para não abrir. O calor extravasava assim num bend tão agudo que sinalizava o tom, jogado à sol à pino, espremia as pálpebras e enrugava a testa resignando quase à todos os olhos, ou ao menos àqueles olhos famintos que deslumbravam tantas vistas de pontos diferentes e que tentavam manter-se alertas à qualquer movimento e qualquer parada, a verem apenas com uns poucos porcentos da visão. Essas músicas - prefiro chamar de nuvens - quase a se tocarem, mesmo separadas pela medida exata da distância que se poderia chegar sem que se esbarrassem e deixassem correr lágrimas, não podiam nunca tocarem-se seguidamente, pois estas se mantinham cada qual em seu lugar a preservar seu íntimo, sua mais completa liberdade de amar. O calor e o vento ríspido de fora eram mais simples, mais lépidos, lá dentro - à bordo - haviam forças, como uma panela borbulhante de coisas explodindo sobre as outras, num egoísmo celenterado pela ânsia de tomar a fala. Do meu lugar - estacionado com minha caravana de pensamentos itinerantes - ouvia o choque das palavras de ordem, dos gritos de adesão, dos blocos carnavalescos e das marchinhas parodiadas dos programas de auditório. Com tudo isso, por mais que pareça incrível, no sentido de não se acreditar, a monotonia em suma era inquebrantável e roía áspera igual acontece no "r" do francês quando evocado à garganta seca. Brasília fez-me chorar lágrimas tão pesadas quanto os marulhos de uma descarga, quase vermelhas quanto à terra, tão alaranjadas quanto o pôr-do-sol. Sol, sol e sol... Sol que no meio do dia fazia reluzir janelas de apartamentos e prédios inteiros na tentativa de supor vida ao concreto e ao asfalto do grande eixo que dava asas à cidade. Eu a conhecia e também à sua natureza morta, não era preciso que a escondesse entre o cinza veredas e a placidez blanca daquilo que era silêncio e desgaste, nesse momento eu esganava a supressão de Brasília que me fazia passar por tolo nas suas ruas certas, construções retas, na ponte arqueada que levava as casas dos colonos para os escritórios e os escritórios para as mesmas casas, fazendo dos halls do poder público uma extensão de seus quintais. No parque murcho e perfeito... Brasília não sabia que o que eu mais odiava era a perfeição. Eu a enganava achando tudo lindo, embolçando meus compromissos, admirando suas linhas escritas num museu banal. Não tenho raiva não. Brasília - isso é certo - queria me ver tremendo, coberto de medo melancólico e solitário, quebrar meu duro coração, amolecer-me com seus barulhos de martelo. Sublimei esse sentimento por conta de minha barraca de lona azul e amarela, fincada no pátio à sombra de uma grande caixa d'água amarelo cor mostarda, entre árvores e pombos, entre os silvos da campainha que sinalizava o recreio dos escolares e que enquanto durava pausava toda e qualquer conversação. Élid chegara na minha hora mais remota, quando os sentimentos eram mais afetados pela nostalgia e pela profusão de uma conversa com o jardineiro tímido e muito quieto que parecia comunicar-se com suas orquídeas, trepadeiras e as libélulas que povoavam esse lugar acomodado numa espécie de recanto, pelos imensos pilares de cimento que se enfileiravam formando grande curva, pelo extenso passeio que eu deslizava na languidez das sombras das árvores em coplô com o piso gelado. Ao final do boulevard estreito vim a ter-me com ela no desencontro de quem encontra o inesperado, nos mandamos para fora dali. Em minha lona de camarim de picadeiro circense - assim agora eu via minha barraca - passei longas e longínquas horas inesquecíveis, abraçado num sentimento fotográfico do segundo eterno de vida fecunda aliviada da altivez do ar. Aquela flor de corpo fértil que eu despia tinha o aconchego belo do seio materno e a maravilha louca que existe na revolução, delicadeza feminina nos olhos firmes de mulher suspirando fundo e dobrando a nuca com a mesma naturalidade que, acima de nós, possuía o céu no seu tom de tarde róseo e dourado. Brasília fazia festa para nos separar, lançava olhares e criava entraves, enquanto nós, abríamos nossas vidas e sem soltar as mãos nos confessávamos tão amantes, como pedras imantadas dividíamos o peso que tem a eternidade e a leveza que o momento traz. Élid reclamava o frio de uma Brasília esmalte, gelidez que eu lhe apontando o sol, frisava por não existir. Ela estava certa, pois sua lente exata se desrregulava ante a me focar, eu me desviava no meu medo concreto das horas passantes, sobretudo da aproximação do fim. Nosso abstrato; longas cartas, trilhas românticas, imagens, poesias noturnas, amor, tanto amor e só o amor... tanto é abstrato tudo isso que alguém escolheu Brasília, no meio do nada e concreto para nos concretizar; esplendoroso amor até o esplendor do dia, do levante de girassóis, do romper da casca do ovo, do sol a alimentar nosso jardim de inverno e a despertar os vizinhos próximos que não entendiam o motivo de uma ibernação. Inventávamos sinônimos e outros adjetivos para aquela vida pragmática que nos tinha no seu interior mais truculento como desbravadores andantes pelas pacatas ruas de um domingo que já amanhecia triste.
Flor de mil carinhos, de perfume jasmínico, Brasília a fez tão quieta, tão longe, imersa nos seus olhares perdidos que chegava a censurar-me da beleza daquele céu que agora sei que só era belo, pois contrastava sobre à mísera natureza que possuía a cidade, mas no entanto fomos salvos. Élid tinha em seu nome Brasília: o "É" amplo acentuado, seguido de um "l" alto e magro, caindo para um "i" com pingado sutil, finalizando após com o "d" de base arredondada que sugeria breve um ponto final. Brasília, quem sabe um dia tu decolas e vais viver deserta, solitária e satisfeita. Minha solidez foi sobre ti tão forte que na despedida não derramei mais lágrimas, pude partir seguro que iria me deixar. Hoje me acordo assustado por não ver Brasília; o concretismo delicado de minha paixão.

Terça-feira, Julho 14, 2009

Antiquado

Atrasados eram os dias
O tempo
E as horas
O carro que vinha
Desafiava-o com métrica nos olhos
E atravessava a pista
Saltando os passos
Vencendo a hora
Chegando a tempo
Três degraus
Credenciado na roleta
Fecha-se a porta
A expressão sustenida no olhar da mulher calada
E de estrada a fora
Seguir viagem
Acordar pesado...
Como nesses dias frios, nublados ou chuvosos

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Para abrir os olhos

Quinta-feira, Julho 02, 2009

A metamorfose

O que faço é reviver o casulo
O útero tão reconfortante
Precipito o início
Olho de lá pra cá
Detectar se há algo de errado
Que asa foi quebrada pelo vento
Que pata me foi arrancada
Minha leveza tem sido esguia
E me equilibrar não tem sido fácil
Mundo de carnívoros tem inseto como iguaria
Obstante que é absurdo pensar no que seria
sem o consolo das lindas flores
Por isso a metamorfose...