“E como é duro para o animal deixar o bando que morreu na selva e não mais existe, fazendo então um desmame brusco.” Diz a primeira frase do texto. Heleno pensa na vida enquanto a vida trepa com outro. Quantos solos de Hendrix e viajns mais – V-I-A-J-N-S.
Um homem passeia na madrugada com seu cachorrinho, tenta dizer que não é tão embrutecido assim. É o que se passa pelo menos. O que é que se inveja nesse mundo? V-I-A-J-N-S? “Oi morena, vem morar comigo em Babilônia!”
Depois de passar o portão de mansinho, numa das esquinas do pequeno pátio, Heleno dava com o chefe saindo na porta do prédio. Voltava Heleno do dia em que faltara. O homem o recebia: “Oi meu camarada, por onde tu andastes?” (E dava uma grande gargalhada). Heleno entendia a brincadeira e devolvia: “Você também está sumido rapaz... Ontem mesmo, aquele problema que aconteceu aí.” O homem respondia: “É, foi brabo mesmo, mas o importante é que passou”. Heleno prosseguia: “Passou... ? Não creio. Alguns problemas aqui precisam de muito para passar.” Nossa Senhora! – pensava o Chefe. O que era uma brincadeira foi espantada por um trovão. Parece que Heleno é um anunciador que faz previsões em sonhos e participa à gente o tempo. Acha-se desconcertado por morar numa região de tempo tão ensolarado e só anunciar que chove – Agourento! Gritaram pra ele outro dia na rua. Ele devolveu: “Sai velha ranzinzáh!” Ele à noite se preparava, acendia um lampião, para dar clima de luz e sombra, e saía pelas dunas procurando um cheiro de molhado, um vento mais úmido ou água doce que fosse. Às vezes encontrava poças que se interrogava se já não haveria chovido naquela noite, pelo menos ali em cima da poça. Mas olhava de uma duna o horizonte, para além do tempo-ali, e imaginava que vinha de longe, enorme, carregada de água doce, assim como sempre previu, chuva. “Tudo passa e nada passará, de um último suspiro”. O chefe também havia faltado no dia anterior, daí fez fita. Despedindo-se para o café na padaria, saudava Heleno: “Os músicos dizem que essa coisa de pensar como músico ainda vai musicar em muita música”.
Se uma cidade inteira pensar que determinado prédio deve ser pintado de azul, ele assim o será. Ele é branco porque todos pensamos assim. Um prédio é pensado e feito. Como se do pensamento se desenrolasse um tapete vermelho, e ele ergue-se. No segundo andar de uma fábrica sendo ocupada por Rebeldes Trabalhistas, historiadores contam sobre a religião Rastafari, histórias que foram contadas por outrem. Lá se vai a religião de Deus indo pelo ralo abaixo. Quanta fantasia na história das religiões, mais que na história dos deuses. Heleno pensa tragicamente: “Deus não existe porque Deus sou Eu, e não poderia admitir que posso ser dois. E lutamos pela vida, não por idéias.” O chefe tratava a Heleno: “Sim, eu também concordo. Quem sou eu se não eu mesmo... não é?”
Marta excomungava ao deixar o copo cair: “Que merda! Deus não existe, e se existe ele é muito babaca mesmo.” Lembra de Heleno certas vezes dizendo: “Calma amor, não é bem assim.”
Ao serem explanados por emissários do governo – os Rebeldes Trabalhistas, Heleno nada contestou, nada alarmou, e fez uma pergunta: “Está havendo algum problema em ficarmos aqui?” Foi respondido: “Não, é porque aqui é apenas uma Plataforma de Contingência (PC).” E a linguagem é sobretudo de meias palavras.
Em casa, a única coisa que se pode ouvir é um sopro vigoroso dado ao seu ouvido, de fumaça sendo posta para fora. E a vida do homem deve se voltar para si mesmo ou ir para fora? Não Podemos Ser Quem Nós Somos, Pois Não Podemos Ser o Que é (N-P-S-Q-N-S-P-N-P-S-Q). Mais meias palavras – tapetes desenrolados pela metade. “Fora insânia, insânia é só insânia.” Esquece-se do autor da frase: “É alguma coisa de arte... marte... disparate... Ah! Bacamarte, sim. Poderia ser um nome de bebida.”
2 comentários:
Grande xará! como sempre tua prosa é arrebatadora!
"Se uma cidade inteira pensar que determinado prédio deve ser pintado de azul, ele assim o será. Ele é branco porque todos pensamos assim. Um prédio é pensado e feito. Como se do pensamento se desenrolasse um tapete vermelho, e ele ergue-se."
maravilha!!
texto bacana sr Davi, rs! Heleno vive dias de cão! dias normais, tão normais quanto os nossos, enquanto nos pairam dúvidas!!!!!!
abs, meu camarada!
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