Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

Uma pedra no caminho

Central do Brasil, quinta-feira à noite, meados de Dezembro. A rua está fervilhando de vagabundos esgueirados nas esquinas, prostitutas fazendo o ponto à porta de bares, gente com carrinhos improvisados sustentando grandes caixas de isopor aos gritos de “cerveja, água, refrigerante!” A multidão saindo do trabalho a correr para os últimos ônibus e trens com destino à periferia da cidade. Pequenos grupos de colombianos, descendentes de índios incas, passeiam vestidos ao estilo novaiorquino, suportando de cabeça baixa os comentários hostis da vizinhança dos cortiços. Alguns meninos adolescentes agrupam-se em torno de barracas de cachorro-quente, com as mãos nos bolsos, mexem-se para cutucar as meninas nas costelas, aproveitando para, sorrateiramente, apertarem a cintura delas enquanto dizem uma gracinha ao ouvido e emendam em voz alta uma letra de funk – agitam-se.

O prédio do exército escurece a praça aos fundos, guarnecido pelas amendoeiras estendidas ao longo do passeio. Heleno pensa nesse gigante obscuro remontando-o aos anos de ditadura no país. Os soldados montando guarda: negros, altos, fortes, de face enrijecida, um deles porta na bainha uma faca do tipo Rambo. Muitos fizeram do exército seu ganha pão, sua ascensão na vida, e sabem o quanto não se arrependem, sabem o quanto não queriam estar do outro lado da rua. Como vencedores orgulham-se de que mesmo tendo sido um dia fadados ao fracasso conseguiram ocupar uma outra posição, de serem a lei, não a lei do cão ou a lei do fracasso, mas a lei do sargento, do marechal, do capitão.

Nessa noite percebe-se que os guardas não estão no local de sempre, deixam um vazio como um velho busto retirado de uma determinada praça. Heleno ouve: “Ih! É o corredor polonês! Aos fundos do prédio instala-se, em meio a água empoçada da chuva que caíra mais cedo e ao resto de embalagens dos depósitos de doce, a tímida Disneylândia das crianças pobres e crescidas, já adultas, algumas com mais de seus trinta anos, acendendo e apagando-se atrás das esperanças esmigalhadas pela vida e condensadas em uma razoável pedra de crack – velozes cinco minutos, imóveis trinta anos. Uma voz grave e forte grita no famoso tom militar: “Alô rapaziada: Vocês não gostam de ficar doidões? Vão ficar é doidões de porrada. Seus vagabundos...!” Um dos rapazes, agachado na porta de uma velha loja fechada, vestindo short e camiseta encardida de fuligem, com o cachimbo ainda fumegando, ri para a tropa de choque atravessando a rua em sua direção, vê o brilho dos cuturnos lustrosos, a farda verde e marrom, iguais aos bonecos com os quais brincava quando criança no quintal de casa, realizando missões, matando monstros e salvando o mundo da destruição. Por aqueles olhos, os cassetetes parecem ainda maiores, a faca do Rambo, o quepe, os músculos do maxilar exuberando força e determinação – quanta alegria ao ter diante de si a figura dos deuses para os quais rezava frente a televisão, envoltos no brilho dos filmes de Hollywood. Ação e aventura.

Na sala de operações, horas antes, os homens recebem as instruções do superior: “Quero que resolvam esse problema. Façam o que for necessário, mas não causem tumulto. Confio na qualidade desse grupo, por isso os selecionei”.

Horas antes, no gabinete oficial do quartel, um velho de óculos de armação de marfim recebe o ofício do mais alto escalão: “Solicito com urgência a execução de uma medida para evacuação de um grupo de meliantes cooptados na utilização e distribuição de substância entorpecente de alto poder destrutivo, do espaço público destinado a transeuntes em localidade de relevante função comercial nas redondezas dos fundos deste quartel”.

No palácio do governo, um general elogia a reforma realizada no prédio. O representante do poder público agradece em réplica: “Obrigado general, pois bem sabe o senhor que se pretendemos arrumar a cidade em que vivemos, começamos então por nossa casa. É uma questão de valorização. O estofado trazido da frança, os vitrais holandeses, o mosaico indiano, tudo isso, ressalta a importância e a função deste lugar. Entretanto, fora de nossos quintais, existem lugares que parecem não ter conserto, estão contaminados de sujeira, de um certo ranço, que para o governo não é fácil limpar – nem mesmo a Comlurb (perdoe-me a brincadeira). É necessária uma espécie de dedetização, uma boa faxina, algo que afaste para o mais longe possível essa sujeira que suprimi e deteriora a beleza de qualquer boa sala. Para tanto sei que posso contar com o senhor no exercício pleno e convicto de sua nobre função. Dizem-me alguns apreciadores das mais belas salas e salões, hóspedes do Louvre, freqüentadores das praias de Barcelona e presentes fiéis nos camarotes das corridas em Mônaco, dizem-me com imenso pesar, mas num gesto caro e sincero, que a nossa cidade está como antes minha sala, precisando de uma reforma, porém, como lhe falei, uma reforma um tanto mais bruta e menos delicada, que possa preparar o terreno e as paredes para esses ilustres senhores assentarem o mármore e pendurarem os quadros, creio que bem me entende.” Assente o general: “Claro meu amigo. Também é de meu paladar esses sabores finos.” Conclui o Ilustríssimo: “Então estou certo de que compartilhamos desse mesmo ponto de vista. Portanto não é agradável para a saúde, e nem para o progresso econômico de nossa cidade, esses catres a céu aberto. É preciso limpar esses ambientes, no mais quando eles se localizam no coração de nossa cidade e tão às costas da sede de sua corporação. Há de convir que ambos estamos, ou melhor, estávamos, até aqui, a guardar o lixo nos fundos de nosso próprio quintal. Podemos começar o quanto antes a fim de que as moscas não estraguem o jantar que damos em nossa casa.”

No dia anterior, no jornal do comércio, a seguinte manchete: VENDAS DE FIM DE ANO NO CENTRO DA CIDADE APRESENTAM BAIXA DEVIDO A ASSALTOS, ROUBOS E FURTOS QUE INIBEM O CONSUMIDOR A SAIR ÀS COMPRAS – DIZ O PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DO COMÉRCIO: “O CRACK AFETA DIRETAMENTE A ECONOMIA.”

2 comentários:

Francisco Casa Nova disse...

tapemos então o sol com a peneira pois o inglês quer ver...

salve salve davi, por aqui tudo continua como sempre, tudo de uma acidez que me agrada mt!

felicidade pra ti meu caro, abs e feliz ano novo!

Ana Raquel C. Proença disse...

hei!
to passando rapidinho pra perguntar como é que você tá...
qunato tempo!
daqui a pouco, volto para ler!
bj, feliz 2012