O teu desejo é desnudo no fogo de teus olhos
Em tua juventude crente de teus próprios seios palpitantes
E em tua boca trêmula
Ao me veres
Tu não sabes
Que eu me afoguei na noite mais impura
Enquanto tu dormias, inocente, junto à casa de teus pais
E conheci, desde o cumprimento cortês das virgens à mesa
Até os miasmas deixados na cama da luxúria
Vi como a noite encharca-se no álcool e aos poucos se rebela, louca
Não sabes tu
Que eu tenho o conhecimento de teus gestos, apesar de sutis
Mas indecentes para mim que conheço dos disfarces do desejo
E sei também que queres trair teu pai
Sei que és curiosa, que queres o conhecimento advindo do vinho
E sei, sobretudo, que tens o corpo mais esguio que o vão do cárcere em que dormes
E tu não imaginas
O quanto já te desejei no silêncio de meus olhos
E o quanto me perturbei apenas com tua mão sobre minha mão
Tu sabes que queres fugir
Que queres ser excomungada para as terras do inferno, onde passearás e farás visita, às escondidas, como uma mulher adúltera
Teu corpo é tua verdade, quando inquieto na poltrona da sala, no seio da família, remexe-se, roçando o veludo, e as mãos pressionando o ventre
Tua verdade está no grito feroz, indignado
Quando calas a boca de tua irmã, e despreza teu irmão pelo temor à lei
Porque me identificas à serpente, e também à árvore proibida do paraíso, àquela que deu ao homem o fruto amargo do conhecimento
Em minha boca há vapores que embriagam, e minha língua tem encantos genitais
Em tua fuga deves saber que, pulando o muro podes ser atropelada na rua
E que no breu da noite teu corpo é o elmo de teu prazer e risco
Todavia, embora meu sono seja banhado em delírios pantanosos
Embora eu durma junto da onça, da pantera e de outros animais ferozes, e dilacere a carne crua das presas junto deles
Sou também carente do alvorecer
Da claridade que a mim não é permitida
E essa juventude que a inocência preserva
É o diamante que perdi
Pois não me é de direito acariciar o pássaro
Ou brincar entre os animais dóceis
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