Quinta-feira, Novembro 24, 2011

Ganesha

Um homem andava afoito na rua, parecia que sentia um imenso medo, chegando mesmo a ser pavor. Seu corpo tinha a pele repuxada, comprimindo-lhe os movimentos. Trajava casaco vestido por cima da pele, sapatos marrons – seria Dean Moriarty ou Sal Paradise. O homem sentia frio porque o vento entrava pelos vãos do casaco e o atingia bem nas costelas – tinha espasmos. Os membros atrofiavam e igual a um vagabundo apressado tremia feito os que tem parkinson, ia contorcendo-se voltando-se para dentro, a esconder-se em si mesmo. Mas desse jeito mesmo era que se expunha, e todos o viam e o reparavam.

Heleno entrava na vida de uma maneira soberba. Era jogado rio abaixo. Lembrava-se novamente do poço em que caíra. E ia ele, ia sim, jamais desistiria. Lutava agora com Neruda, e no fundo de sua juventude desmentia o velho poeta. “Olá camarada, voltei para escrever outras riminhas. Acredito que tenha lido algumas delas. Portanto trago outras, para que passe o tempo.”

Meu Deus! Para quem Heleno escreve? Parece mandar recados para o além, como se estivesse se comunicando com uma outra pessoa. Ele então revelava, num súbito instinto de verdade, gritando do fundo de sua juventude: sabia que ninguém jamais o compreenderia neste mundo, e não existe um outro ele, nem outro mundo – tanto orgulho e o desamparo. O bicho que não consegue encontrar seu bando na selva, nem na cidade e em nenhum lugar. E essas palavras perfuravam tanto à ele quanto o poeta recluso, escondido logo no inferno, onde pensou que ninguém pudesse o encontrar. Recolhia-se voluntariamente, como um idoso curiosamente, por conta própria, dá entrada em um asilo.

Zé Ramalho tocava “Um índio”: “E todas as formas da natureza mostravam a grandeza do mundo em lágrimas.” Nesse abismo, nesses céus de abismos, nos deparamos até mesmo com Buda, acessamos o plano de iluminação. Pelos meios de Castañeda ou não, alcançamos. Alcançamos nossos próprios meios. E a vida é fantástica, é literalmente mágica. Mágica de magia mesma. É tudo magia. E todos ao redor são seres mágicos, magiquíssimos, muito mesmo! (Heleno toma banho e sai para trabalhar. Precisa ir até a redação entregar o texto para a edição da semana).

Se Heleno tivesse uma filha, um dia ele iria ter de dizê-la (ele imaginava...): “Minha querida, na vida temos grandes amores. Você já deve saber disso. Às vezes percebo que seus olhos brilham dizendo que viver é ser um ser encantado. Em outras horas a vejo com a expressão decepcionada de quem está “à espera de algo que nunca vem”. Isso já me disse uma vez um grande amigo. Veja como há pessoas que são encantadas, que vivem de amor, de encontros, despedidas, instantes emocionantes em que se descobre o Universo do outro. Vê minha filha. Não tenha medo de amar por que estará sempre a encantar e a ser encantada. É linda como uma flor de fogo.”

E pensava também no que ela diria, menina esperta que seria, sendo filha de Marta.

“Pai, às vezes sinto que o amor me consome, me tira tudo, até o último lasco. Eu não sei muito bem do que falar, mas parece que o amor não é tão fantástico assim. Ele acontece o tempo todo, sinto-me aprisionada no amor, às vezes. Já cheguei até a pensar que todos os amores são proibidos e impossíveis, e que nunca nada deles desfrutarei. Sou tão jovem, e mesmo assim não acredito no amor desse jeito tão superior. Ninguém quer, ninguém pode ou nem chega mesmo a pensar em suportar viver sem apaixonar-se. Acho um lamento infinito o amor, e acho que aquele que ama é um eterno prisioneiro de um cárcere fantasma. Desculpe pai, meus olhos hoje estão como você já observou outras vezes, tudo à minha frente é opaco; meu mundo qual Shiva embalando o universo dançando embriagada. E sei que me compara à flor de fogo porque sou assim ardendo por dentro e fria por fora. Thank you. I’m fine! rs. Amanhã será bom.”

“Ganesha!” – Heleno chamava pela filha, que saía da sala sem atendê-lo (silêncio – Elis tocando baixinho no rádio: “Daí, nosso mais que perfeito está desfeito...”).

Heleno acordava do sonho. Lembrava-se que teria de ir ao jornal. E faltava pouco para a hora. “Responsabilidade é o nome que se dá para se fazer aquilo que não quer. E como gritam as responsabilidades no coração dos apaixonados!” Heleno entendia muito bem a filha, afinal, se via tanto nela... via Marta nela, via o amor na filha. “Como a responsabilidade fere a juventude...” – concluía o pensamento levantando-se para tomar banho e sair ao trabalho.

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