Sexta-feira, Novembro 11, 2011

Escafandro

A última palavra que Heleno pode dizer, num momento de tristeza e raiva, de desgosto do corpo, da alma, de tudo que é possibilidade, é que, de acordo com o que ele compreende da fala de um filme francês é: “A chaque jour je t’attends, il a dire: a chaque jour je t’attends”. Essas palavras eram as mais lindas para Marta, aquela que, de repente, num suspiro dava um salto, ressurgia fênix, delicada flor de fogo. Como tu és! Pareces filha da lua, ou filha do alvorecer, que dormes ao cair do dia. Quiero falar-te. C’est le toute vérités de ma vie! Meu deus! Como pode se falar assim? Como pode se escrever assim? Deixamos que o ridículo atinja o seu fim, e ridicularize tudo e todos. Como inventar o místico, o sapo, a borboleta, o mágico? O escafandro repete no fim de tarde na selva, submerso no verde azul em face à chegada da aurora, diz veemente: A cada dia eu te espero. “Qual é o filme?” Marta pergunta a Heleno. Ele responde logo: “Adivinha?” Marta recebe as palavras como criança que irá receber uma “surpresa”. E não sabe expressar o tamanho do amor que sente pelo homem. Como se fosse uma parte sua, o ouvido, ou a fala, até o aparelho da respiração. “Claro que o universo é um organismo, muito vivo por sinal.” Pensa Heleno. O sagaz homem fumaça sempre existe. Ele é o nosso herói. O destemido, valente. Ele é um para sempre a deixar o casulo.

Heleno orgulha-se de viver próximo a tal beleza. A Comunidade Filosófica de Estudos sore a Entidade Vida fica ali, bem perto, naquele morro de prazeres, e à beira-mar. Quantas inversões existem nessa vida. Quantas mulheres cheias de solidão incurável. “Não para mim, é certo. Sou também xamã. Sei que do veneno que co-habita meu corpo não posso deixar de bebê-lo. É meu remédio.” E então, ele que é empenhado na “metamorfose ambulante”, diz para qualquer um ouvir: “...e nunca deixarei de ser quem eu sou”. Marta sussurrava rindo baixinho: “Nunca diga nunca Heleno.” Ele se roía de ódio dela. É bom receber cartas! Do banco não. Acaba com a surpresa quando agente vê que é a de rotina, aquele periódico demonstrativo do quanto se é pobre frente a uns e rico frente a outros. Como diz o velho morador da Comunidade Filosófica – que Heleno tem o olhar rápido, mas não tão rápido. Que Heleno sabe bastante, mas quase nada. E que o mesmo titubeia quando quer expressar uma opinião contrária. Nossa! Heleno não vale nem aquilo que ele acha que seria miséria. Marta também não vale. Nem o gelo derretido dos altos cumes, nem mesmo aquele que, no isopor, deixa a cerveja boiando na água entre rótulos e plásticos.

Um telefonema do chefe do jornal – “Bom dia Heleno. Recebi a sua poesia, mas não sei... Parece-me um pouco obscura, obscena, nem sei... Ela tem aspectos repugnantes, como aquilo de comer carne crua com as feras. Mas isso, por mais estranho que pareça, é a vida não é... Sei que a vida é selvagem por NATUREZA. No entanto a selva é nossa casa com um aspecto hostil, talvez seja uma espécie de mundo não habitado. Fico impressionado como pode existir essa natureza ferina, que fere a própria natureza. Sinto a vida como um caos. E não posso negar isso. Meu amigo, sabes que te admiro... Gostaria de publicar uma poesia assim no jornal, mas você sabe, me entende também. O jornal vende coisas opacas, sem idas e vindas, tem que haver sempre algo de notícia no que se escreve, tem que haver fatos, fatos acreditáveis, história possíveis, coisas bonitas e até tenebrosas, mas que façam parte da vida das pessoas, ou que pelo menos elas entendam que fazem. Parece uma lança sem fim que perfurará o leitor... Por que não sai mais de casa durante o dia, acorda mais cedo, dá uma volta... Olhe os pássaros, as pessoas saindo para o trabalho, o pão nos sacos de papel... Fale do samba, da mulata, da vida suave... Por que não fala nunca dessas coisas Heleno? Não entendo o que acontece com você? Ninguém suporta viver tão assim: com o dedo na ferida. Desculpe. Eu não tenho de dizer isso. Tinha apenas que avisá-lo que precisamos de outra coisa para publicar essa semana. Pode me entregar amanhã. Ok?”

Heleno respondia: “Sim.”

Se fosse Marta respondendo, certamente diria em francês para zombar o editor: “Oui monsieur.”

Não existe regresso para quem abandona. Se abandona é porque não vai mais voltar. Se então volta é porque não abandonou. “chaque jour je t'attends... frases que não saem da cabeça. “Misteriosa Névoa Suprema da Dor.” “Ah... Quantas ilusões.” “As luzes do arrebol.”

Heleno diz: “Quero apenas ser livre.”

Marta diz: “Quero ser feliz.”

Coisas tão diferentes quanto semelhantes, absurdas sobretudo.

“Heleno, não quero você aqui. Deixe-me sozinha! Por favor, saia, saia, saia. Saia caralho! Saia porra. Não quero olhar pra sua cara. Eu sou infeliz, sou muito infeliz mesmo, muito infeliz. Deu tudo errado.” (Marta está em prantos na cama, com a cabeça debaixo da colcha e toda coberta, enquanto Heleno tenta falar-lhe, fazer carinhos. Marta dá tapas embaixo da coberta, quer maltratar o homem enxotando-o para longe).

“Tudo bem Marta.” (Enquanto isso Heleno veste a calça e os sapatos, vasculha os bolsos, mete o isqueiro em um deles) Ele diz: “Vou sair para comprar cigarro.” (Marta para de chorar e o olha agora com muita raiva).

“Está fugindo... Você sempre foge. Tem essa mania, essa bendita mania, essa coragem, de sair e me deixar aqui sozinha. Não o agrada a minha companhia, sei que você não me ama, e sei também que vai sair agora e chegar em casa só no outro dia.”

“Não meu bem, quero ficar com você. Só vou sair para comprar um cigarro. Enquanto isso eu descanso e você também...” (Marta tem medo que Heleno não volte, que passe a noite na rua. Heleno está magoado, embora não pareça, e olha a mulher derretendo qual a flor de fogo. Marta pede para Heleno trazer então uma cerveja. Ele sorri e sai de casa. Dá para ver que Marta tenta esconder o pequeno sorriso que dá por dentro, mesmo mantendo a expressão cerrada. Heleno toma como missão de sua vida: voltar com a cerveja de Marta).

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