Se o homem não dorme, nem passa a noite em claro em algum bar, nem menos se embriaga na claridade dos olhos da mulher, é porque esta agora é um espectro: há fumaça e o zunido de fogos de artifício que na noite passada estouraram no céu. O passado é então uma chave quebrada, um telefone anotado na palma da mão e apagado pelo escorrer do tempo. Chega o dia em que o homem descortina a consciência e vê num retrato o portal fechado para o mundo que o sempre rejeitou, para o mundo que se algum dia acreditou fazer parte, fora deste expelido como o organismo faz com a inflamação, restando apenas, no lugar do caroço amarelo, um buraco que com o tempo cicatriza. No more man, no, no cry. Como é difícil para o animal perdido encontrar na selva o bando com o qual nunca esteve. É tremendamente quase impossível para o bicho desgarrado desde nascença encontrar os outros da mesma espécie, se o cheiro que reconhece, a trilha que fareja é senão o próprio rastro e as pegadas das voltas e voltas que já dera na mata. Sabido é que: “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”. Hesse é o mestre. O bicho que sai do ovo é um destruidor, uma vil criatura. E aquele que abandona a placenta é um rebelde por NATUREZA. Portanto, nascer é rebelar-se. Os que ainda não se rebelaram ainda encontram-se por nascer, estão adormecidos no útero, e o som que ouvem é do coração da mãe, a comida da qual se alimentam é o líquido materno enviado ao estômago através de um tubo, um conduto, sem ondas de interferências.
A rua toda está quieta, os estabelecimentos fechados. Morro dos Prazeres – luzes crepitantes coloridas através das cortinas das salas e nas sirenes dos carros de polícia fazendo ronda. Um grupo de rebeldes reúne-se num boteco, resistentes ao conforto da casa, entregues ao exame astuto do estetoscópio duvidoso dos guardas noturnos. Heleno atravessa a “dura” ileso, despercebido passa entre armas; peles negras, chinelos de dedo, casacos grandes de nylon estilo americano, tórax ressaltados, cuturnos, vozes grossas, grosseiras, cabeças baixas. Rua acima, num bar toca Led Zeppelin - outro ponto resistente que será talvez em breve revistado. Atrás do balcão uma mulher ruiva; sentada num tamborete alto uma mulher loura, outra mulher loura relaxada em uma cadeira de plástico – nenhum homem, apenas algumas meia-garrafas de cerveja e essas mulheres de cabeça baixa nessa cena nostálgica, tendo em vista a volúpia que deveria provocar o som furioso no rádio. Como é triste essa noite de 1984. Heleno anda com disciplina, sem desviar-se um momento da rota, mas ao passar na blitz teve medo de que seus pensamentos fossem descobertos. Tentou distrair-se com o guarda-chuva. Sentiu-se envergonhado de estar arrumado, de estar a voltar do trabalho, sentiu-se mal por não ser identificado como um culpado. Heleno, faz muito tempo que criara-se de ideologias criminosas. Vem sendo tido apenas como suspeito entre os suspeitos, sendo que em certas noites já fora seguido até a porta de casa por uma ou outra viatura de polícia a vigiar seus pensamentos. Depois de tanto criar um mundo de ideologias faltou-lhe um mundo para comportar o mundo que criou. E chegou então a desesperar-se, posto que, em verdade, faltou-lhe coragem para destruir a casca do ovo esculpida com tamanho zelo e cuidado – permanecendo encolhido, com os joelhos encostados no queixo e as asas o cobrindo, assim como vive por eternos meses um feto de pássaro. A face masculina da noite fora humilhada quando diminuída à ordem de “Encoste na parede e abra as pernas!”. O rosto feminino ficara entregue à deformidade do álcool na pintura dos olhos e na mancha de batom borrado nos lábios. O som da música que outrora explodira uma fábrica de chumbo é agora contidamente incapaz de movimentar os corpos nessa noite de 1984 – e tudo é reduzido à lei e à ordem.
E Heleno, esse grande herói covarde, entra em casa, tranca o portão, a porta, devora o último pedaço de pão, fuma o último cigarro, bebe um copo d’água macilento, deita na cama, beija o retrato de marta, e cai no sono para descansar em paz.
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