Sábado, Outubro 15, 2011

Fábrica

E as cidades, continuam consumindo a juventude. O que faremos? Consumiremos?

A juventude não é mais “uma banda numa propaganda de refrigerantes”. Ela chora nas fábricas da imagem e do som a perda de seu diamante telepático. Entretanto, diante do chefe de produção o jovem operador atira pedras no rolo compressor do tempo, revelando sua alma de artista. Ele diz: “Está vendo esta folha de papel? Pois bem. Se é dada uma semana para a fabricação desta folha ela poderá ficar perfeita, porém, se é dado apenas um dia, ela será o produto da angústia, do suor, e do desespero de uma meta”. O chefe assusta-se com a questão colocada, o paradoxo escancarado em sua frente – como um dia foi provada por um gênio, num eclipse, pela sombra da terra projetada na lua, a forma arredondada do nosso planeta. Ao final, o chefe pergunta para toda a ilha de produção: “Creio que aqui todos confiam em seu próprio potencial de produção. Por favor, levantem a mão”. Protestando, num gesto silencioso e altivo, nenhum dos jovens operadores ergue sequer um dedo – apenas um deles, mas para coçar o nariz. O espanto e o medo tomam a face do chefe, é o candeeiro que descobre no olhar de seus animais que eles enfim descobriram que possuem a força para arrebentar com a canga e libertarem-se do carro de boi. A reação do condutor é de deixar a vara de lado e correr a mão sobre a cabeça dos bichos, alisando-as, temendo olhá-los nos olhos, sentindo que eles desviam a cabeça de sua mão, um tanto inquietos, bufando e socando os cascos no chão.

Heleno, antes de sair de casa para o trabalho, tenta a invenção de um novo mundo, é lindo, mas ao fim do parágrafo sente-se triste e prefere não escrever o próximo. Como está preso a este mundo, e suas penas entristecem a poesia:

“Lembro-me das tardes de sol em que a princesa de um reino da Índia deitava-se à sombra dos laranjais, lendo poemas enquanto perfumava-se de flor de laranjeira. E os meninos, filhos das criadas do castelo, com seus trapos sujos e olhos de paixão juvenil, faziam barulho no mato, espiando-a, e sonhando um dia tornarem-se príncipes”.

A princesa chora, aprisionada na torre de seu castelo; ama aqueles meninos. Pudera ela casar com todos eles, adotá-los, dar-lhes o seio e o colo, o sândalo, as tâmaras e o ouro de sua dinastia. Terá no seu destino o mesmo que Geni? Terá ela, a donzela da pureza e da bondade, que deitar-se com o asqueroso e cruel Senhor do Zepelim. Terá de morrer como Jesus Cristo? Heleno não quer mais escrever essa história. Mas estando ele sem vender seus quadros, trabalhando apenas como jornalista, escrevendo alguns artigos para jornais e revistas, ele crê ser seu dever fazer denúncias poéticas. Como não as fazer, se seu herói capoeira é Zumbi, se ele viu em Raul o Moisés de outrora libertando o povo do Faraó do Egito e conduzindo-o através do deserto. “É necessário continuar”. Heleno então se convence de que “é proibido proibir”.

Em uma fábrica do Rio de Janeiro, a princesa indiana exilada de seu Reino levanta-se, ela não é filósofa como o jovem que fala sobre a folha de papel e a criação do tempo. Ela é a autoridade real, é a guerreira na frente de batalha, é a mãe e a filha de seu povo, e é, além de tudo, a senhora de si mesma.

“Eu não fui grossa com você! Não vou me levantar do meu lugar. Continuarei aqui. Deixe-me trabalhar, por favor.” – diz ela ao chefe. “Garota, eu estou falando serio com você, sou seu chefe e você é simplesmente uma operadora. Estou lhe dando uma ordem, me acompanhe agora! Dizem que você é a rainha de algum reino distante, sei lá de onde veio, não me interessa, aqui você não é nada, posso lhe demitir a qualquer hora, garota. Portanto, digo pela última vez, acompanhe-me até a minha sala.” A princesa levantou-se de sua máquina, abandonou o trabalho e atravessou o galpão humilhada diante da operação, mas com a cabeça erguida, sem querer demonstrar fraqueza. Teve então, na sala do chefe, de ajoelhar-se aos pés do patrão e pedir-lhe perdão, entregando-lhe a coroa de sua majestade. Deixando a sala da chefia, indo direto para o banheiro, a princesa afogava-se no pranto de saudade de suas terras, do som das cítaras, dos laranjais, dos poemas, das meditações. Entrava em xeque o sentimento que a fizera abandonar sua fidalguia para tornar-se proletária. Sentia falta das criadas, dos banhos de ervas, dos lençóis da cama, dos tapetes e da admiração e respeito que todo o reino lhe dirigia. Se estivesse próxima, voltaria correndo para casa, e nunca mais pensaria deixar seu castelo.

Heleno era um herói da desistência. Ao terminar o texto, um amontoado de um algo vago e sem nexo, sem sexo, coerção ou coesão alguma, amassava o papel e o jogava no lixo. Um telefonema do jornal... Dizendo de um texto anterior, noticiava o editor chefe: “Heleno, falaram mal de você hoje aqui e eu o defendi. Seu último texto foi mal recebido, preciso de alguma coisa que todos gostem. Por favor, conto com você. Um abraço!” Ouvir isso era fatal. Olhando no papel frases falando sobre uma princesa exilada de um reino da Índia, de proletariado, tempo, juventude e diamantes telepáticos, ele não podia levar o texto a frente. Ao passo que era um esboço cinematográfico tentando alcançar de longe a alma de Jean-luc Godard, era também uma fantasia infantil sem nenhuma consistência. E desistindo de sua luta revolucionária, vendo o quão ingênuo era nesse golpe de mudar o mundo, Heleno rasgava o papel em uns sete pedaços e deixava-o na lixeira. Pensava em uma jornalista linda, funcionária do jornal para o qual dirigia a maior parte de seus textos. Lembrava-se que ela havia saído com um dos anunciantes de uma empresa de automóveis. Heleno atribuía à mulher todo o fracasso, injustiça, crueldade e mesquinharia do mundo – “uma mulher que lê poesia, se diz ligada às questões carentes da vida, como pode sair com um babaca daqueles, um playboy desinteressado de tudo que não seja seu status de maioral. Se ela estivesse comigo o mundo mudaria muito.” Ela, com suas saias curtas e blusa decotada de maravilhosos seios redondos, seria a parceira perfeita para a revolução de Heleno. Pelo menos ele deixaria as famosas bonecas das revistas masculinas para hastear sua bandeira vermelha dentro da moça.

Heleno era desistente, mas, sobretudo, um herói. Depois de muito refletir e doer-se com o amante de sua musa desejada, ele enviava um poema para ser publicado no jornal, da estirpe dos que falavam de Marta:

O que me destes foi a lua?
Não menos que seu colo enluarado.
Foi o sol o que me mostrastes?
Nada menos que a quentura branda, o mormaço de teu ninho.
E a noite que me oferecestes?
Nada menos que a profundeza escura de teus olhos.
Perguntas mulher, se tudo isto basta.
Qualquer resposta é controversa se medida na febre de um apaixonado.

E esse era o manifesto que Heleno conseguia passar pelo interesse do editor, pelo prelo e pela prensa da tipografia, até as kombis de entrega, chegando ao café da manhã do representante da marca de carros, o poema ao lado de um novo modelo no mercado; chegava também à casa da jornalista bacaninha, de ressaca da noite que trepara dentro do carro no estacionamento de uma boite, com a cabeça misturada de Whisky e Cuba Libre: “coitado do Heleno, é um apaixonado, rs”.

Em uma banca, procurando outro emprego, a princesa do reino da Índia comprava o jornal, esperançosa nos Classificados. Ela lia aquele poema decepcionada com a alienação desses poetas jornalísticos em relação ao sofrimento do povo, dos rapazes e moças trabalhadores, que tanto amam, que tanto sonham, e que nunca são destaque. “Para mim, tudo isso é lixo”. Anotava um telefone de uma fábrica e devolvia o jornal à pilha na banca, achando não haver necessidade de comprá-lo. Perguntava ao vendedor na banca: “Moço, de quem é essa música no rádio?” O senhor respondia: “É a Legião Urbana. Uma banda antiga... Não deve conhecer, você me parece tão jovem...”. A moça respondia de cabeça baixa: “É...”.

1 comentários:

Davi Machado disse...

Bah!!!!
este texto, nem sei, parece-me sugestionar um Dom Quixote moderno, mais lúcido, talvez! Ninguém vê dentro dos lhos destes cavalos calados o abismo real que o tempo vai correndo, corroendo, erosão...
o que se vê é um plácido oceano de alegria=felicidade(?)
Nosso dia vai chegar...
Não é pedir demais...

Xará, é muito bom me abismar aqui! abraços e curta a chuva!