Será que a nossa vida humana é mesmo "como uma noite profunda e triste?" Herman Hesse sabia de algumas coisas. Porém, também sabemos nós, que não se pode acreditar fielmente nos poetas. Como outrora outro alguém já dissera, são esses tipos "buracos negros". E que também a beleza que existe nessas tristezas belas são "doenças sexualmente transmissíveis". Não é a doença o grande mal, mas sim o corpo que se deixa penetrar sem proteção, sem plástico, gozando dos prazeres líquidos, tão úmidos e quentes quanto perigosos. Um homem preso dentro de um filme, certa vez também dissera: "todo aquele que dorme tem de ser uma hora acordado" - Si, puo fare.
A campainha tocava, Heleno dormia com a janela entreaberta. Levantara-se um pouco na cama, olhara a porta, e quem poderia ser. Tinha a estranha sensação de um dia lindo. "Meu deus, quem será?" Há muito ninguém tocava sua campainha.Vivia solitário e fazia questão de não fazer amizades estreiras, pois evitava conversas íntimas, e muito mais quaisquer visitas. "Quem deve ser? Não..." Somente Marta tinha o poder de refletir o céu, como faz o mar, de cor azul em céu azul, de cor cinzenta em céu cinzento. "Heleno! Posso fazer o café?" gritava a foz feminina atrás da porta. "Sim!!! É óbvio que é ela" - Heleno enchia-se de algum gás psicotrópico, parecia inflar-se. O peito nu no espelho do quarto parecia mais moreno, e os cabelos desarrumados mais dourados, bem como o cheiro dos cabelos da mulher já tinham passado debaixo da porta e intrometiam-se no quarto dizendo: Ande homem, levante-se porque ela está linda e radiante. Heleno então, da janela do quarto, olhando para a porta gritava: "Entre Marta, a porta está aberta!" E ela entrava carregando um monte de grandes conquistas, um sorriso sincero, e certa altivez intelectual; sentara-se em uma cadeira na cozinha, próxima da área, de pernas cruzadas, olhando-o com a face descansada no queixo descansando na mão fechada descansada apoiada pelo cotovelo no joelho.
Heleno estivera fora na noite anterior. Como nenhuma novidade havia nisso, ele poupava qualquer um de detalhes. Estava num bar. Olhou ao lado e viu um homem, jovem e esbelto parado ao balcão. Heleno se comprazia dessa gente; sabia como era dura a carta magna da solidão. E ingênuo como um monge Zen dirigia-se ao seu mais novo irmão tentando dividir com ele as suas algumas quatrocentas culpas: "É... é isso né amigo..." O homem, como se já estivesse saindo, fez algum elogio ao visual de Heleno, e, antes de deixar o bar voltou-se para ele dizendo: "Aí, se precisar de alguma coisa... É só me falar. Tenho um bagulho bom aqui." E tudo que Heleno precisava era de um bagulho, um bagulho qualquer, pois ultimamente andava revirando lixeiras na zona nobre da cidade. Remechia os latões a procura de revistas que revelassem a tendência da arte ou indicassem maneiras de se tornar artista. Mas em suas buscas só andava encontrando resto de comida, garrafas vazias e calcinhas sujas. "Vem comigo - disse o cara." Heleno, achando ter encontrado um desses personagens de Jack Kerouac, um texano com honra de caubói, ou um californiano doido pra curtir a vida na estrada, acompanhou-o, dando ao desconhecido duas notas de dez reais para um tal bagulho e o troco. Logo a frente estava o camburão, como se alguma cilada estivesse já preparada. "Aí Heleno, segura aqui que os caras estão bem ali do outro lado. Não dá pinta não hein. Vou buscar aquilo que nós precisamos. Confie em mim porra, sou sujeito homem." Heleno correu, atravessou um pequeno quarteirão, em busca de alcançar a próxima rua. Já sabia que havia sido enganado. Corria para avistar o sujeito, encará-lo sem dizer uma só palavra. Olhá-lo com a vista mais interrogativa, com a decepção mais profunda, com a reprovação mais severa que pudesse em silêncio expressar. Quem sabe dar-lhe um tiro na alma...
Marta dizia: "Então Heleno... Está se virando bem? Sabe que me preocupo contigo. Mesmo estando longe, penso muito em você. Sei que é muito distraído, e às vezes acho que qualquer hora pode acabar se dando mal andando por aí." Ele então respondia, ainda entorpecido pela visita, e, sobretudo, por ter acabado de acordar: "Não Marta. Não se preocupe. Tenho sido esperto aqui. Tudo está correndo muito bem. Tenho conhecido muita gente por aí, e isso é o que me há de melhor. Aliás, quando você puder, ou melhor, quiser, a levarei para passear em lugares fantásticos." "Heleno - disse Marta - vou contar-lhe um fato que me veio a cabeça:"
Ontem, em um canto dessa noite urbana, próximo ao Monumento da Guerra, do lado de lá da pista e dos pés de algodão, um casal dirigia-se ao Parque da Enseada. Mesmo madrugada, haviam poucos lugares tranquilos para se conversar à beira mar. Logo foram os namorados abordados pelos únicos caras do local: "Tem fogo parceiro?" O namorado tirou o isqueiro do bolso e o ofereceu. Despediu-se, e quando voltou-se para a mulher foi chamado novamente: "Aí, o que tu tem nessa bolsa aí? Tem um dinheiro pra me arrumar não pô?" A mulher sobressaltou-se ao ver mais dois homens aproximando-se. E ainda conversando com o que lhe pedira o isqueiro, o namorado foi surpreendido por outros dois caras - de porte hostil, mas bem afeiçoados - que disseram: "Tá pegando alguma coisa aí? Qual é amigo?" O casal respondeu: "Oi, tudo bem. Está tudo tranquilo. Agente só veio dar uma volta." Sabiam que não estava nada tranquilo, e preparavam-se para o pior. Queriam isolar-se da multidão, de uma festa alternativa na qual discutiram com a produtora do evento sob o fudamento de que o preço da cerveja não era condizente, nem com as músicas que a banda tocava no palco e nem com o tipo que a tal organizadora tentava aparentar. "Vai se danar, isso aqui era para ser um lugar especial. Você está acabando com a coisa toda". E lá se foram embora, tendo de sair ainda pela porta dos fundos. Momentos depois teriam os dois namorados novamente sonho e vivência violados, para melhor dizer, roubados. Do outro lado, na enseada, depois das árvores de algodão, além do ponto das prostitutas travestis, já passada a praça onde os mendigos dormem, ali não se vê catracas nem seguranças de uniforme. Ali estavam, em roda, cercando um casal apaixonado, homens desnudados de suas paixões, decadentes como o alto preço do ingresso para a festa da felicidade digital, rasos como a superfície de uma tela de Tv. "Gente, estamos juntos. A vida está difícil para todos nós. Se agente se sente como inimigos, as coisas serão mais difíceis do que já são. Nossa luta é para que não tenha que ocorrer dessa maneira." E então, por muita sorte do casal, eram ambos os namorados confundidos com a humildade e o reconhecimento que se tem o morador de rua com um seu igual. "Está tranquilo, podem ir. Tranquilo, tranquilo, vai lá." - disse um dos marginais. "Pô, vocês também são de rua né... valeu então" - disse outro deles enquanto voltavam todos para um bosque mais sombrio que a própria noite, fazendo novamente um recuo ao submundo, desaparecendo como se fossem assombrações.
"É uma bela história sabia. Acho que por trás de toda essa violência existe certa generosidade. Houve compaixão no lado marginal. Ali, nesse lugar, os caras poderiam fazer o que quisessem com o casal; mas não... Considero como importantes esses momentos de total destituição de poder, nos quais... " Marta interrompia Heleno: "Sim, eu sei de tudo isso, só estou tentando dizer que as coisas não são bem como pensa. A realidade está aí. Se não me engano, lembro de um grande revolucionário, ou pacifista dizendo "o sonho acabou. Então, hoje em dia não dá pra se viver mais assim: liberdade...". "Não Marta, o sonho só acaba se você acordar. Está tudo a nossa volta ligado demais a realidade - ao que realmente existe porque é importante, ao que realmente é importante porque existe." Por favor Heleno, não comece com suas viajens não." "Tudo bem Marta, vá com sua realidade que eu vou com meu sonho, afinal eu estava dormindo e você que veio aqui a essa hora da manhã me acordar. Antes eu permanecesse dormindo." "Idiota, Heleno! É exatamente e somente isso que você vem sendo a sua vida toda, e pelo jeito irá sempre ser. Vai se fuder a vida inteira vivendo nesse mundo de ilusão. Você é um idiota! Adeus de novo. Estando aqui na cidade, achei que fosse bom vir te ver. Mas não." "Ah... Vá pra onde quiser Marta, vá viver sua vidinha de bacana!" A porta do apartamento batia com força. Sem dúvida aquilo acordara vários vizinhos. Heleno pouco se lixava, ou ao menos não naquela hora. Voltava para a cama e rapidamente voltava a dormir. Marta descia as escadas como no dia em que partiu: chorando junto com o dia nascendo enquanto Heleno a esquecia apenas na profundidade de seu sono. Dificuldade de unir-se tinham eles. Ao mesmo tempo deviam ser sonentos mas também despertos - desempenhando a impossível literatura jovem de cantar sonetos e narrar os fatos.
1 comentários:
Fala!
Xará, me espanto quando venho aqui, tua produção sempre é de qualidade, aproximando-se tanto sutilmente duma marginalidade poética bem original, quanto duma estética de rua, urbana, cinza... mas com pontos coloridos - meio visão embaçada de bêbado.
Perdoe-me a mania crítica que tenho aqui, mas não posso deixar de observar qualidades puras nos seus textos, e como este, é difícil encontrar quem se preocupe com o teor e dosagem no que faz.
abraços.
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