Quinta-feira, Agosto 18, 2011

308 - A casa, o sexo e o trabalho.

Um ônibus-fera rasga a noite. Um jovem alucinado que engole metros e metros de pista a cada segundo, trepidando louco, como se correndo desequilibrado não estivesse a importar-se com absolutamente nada, apenas com a tarefa furiosa de digerir a estrada até que ela se acabe. Dentro do ônibus, a maioria homens. Evidente pelo avançar da hora. A linda garota atravessa a roleta, ao levantar os olhos assusta-se com os tantos olhos que vê; trabalhadores, gente acostumada com a vida pesada em toda sua superfície esférica, acordam para a leveza da alça do soutien que deixa escapar uma pequena faixa por debaixo do braço da moça, o vestido tão solto a levitar com o vento que arranca com o ônibus; a silhueta dos seios tão arredondados que destoam severamente das quinas e esquinas em que esses homens se feriram durante o dia inteiro. Mas por que essa noite, de lua cheia, enluarada, da cor da prata que se faz brincos, anéis e cordões, é tão majoritariamente masculina. As moças entram no ônibus e vão olhando para o chão, acomodam-se no primeiro banco livre que encontram, o mais próximo da porta que estiver. Que noite é essa que afugenta logo a mulher. Enfileiradas nas calçadas, travestis, tão femininos, expostos semi despidos à luz da lua; tão masculinos nessa postura, de pararem em becos escuros, solitários, com os seios à venda. Carregam a arma escondida entre as coxas grossas, arma esta que neles é exatamente a responsável pela prematura e imperdoável morte do que seria uma adorável mulher.

Num quarto de motel dois amantes contagiam-se: ele, defensivo por considerar ela carinhosa. Ela, especialmente amante por achá-lo um tanto bruto. Do lado de fora, alguém mata e alguém morre. Em alguma casa, alguém chora. Em outra casa, outro alguém chora pela dor de alguém. Algumas janelas dormem, impraticáveis desses acontecimentos todos. Uma luz acende ao som do ralhar do 308 - lá vem o monstro aterrorizando a selva! A secretária do escritório de uma média empresa desperta furiosa com o barulho da cama no quarto ao lado, ouve o gemido da madeira podre da cama que só a faz pensar na vida podre que a levou a amar pouco e acabar tendo de morar em um cubículo também podre de parede-meia com um motel barato. E então gritava socando a parede: "Vão trepar a noite inteira é? Aqui é o meu quarto. Não sou cliente não, merda. E nem vagabunda! Amanhã levanto cedo pra trabalhar!"

Heleno não enxergava as horas, havia tomado veneno para matar micróbios (lombrigas, entre outros vermes inconvenientes) - efeito colateral do remédio era o que lhe dava tanto sono...

Marta estava acordada, sentada na cama lendo jornal - "A tensa arte de se fazer arte na rua". Lia uma reportagem sobre os exóticos e virtuosos que dirigem no trânsito da poesia anárquica nas vias iluminadas da madrugada.

Um motorista, carregando uma pochete pendurada no ombro, era iluminado pela luz vermelha da portaria do motel. Terminando de descer as escadas, ali parava brevemente para acender o cirgarro, como se fosse um artista recebendo os aplausos, e então saía... Contente por ter deixado a amante no quarto, agora estava livre para fazer os dois últimos horários da madrugada. Não dali há muitas horas já seria dia. Ligava o motor trepidante, com as pernas agora feitas de aço, engatava a primeira marcha e acendia o letreiro luminoso - 308 CENTRAL-BARRA. 

1 comentários:

élid disse...

saudades daqui.