Pois a nossa arma é um desabafo, um escarro, um vômito e uma tragada forte. É um olhar abatido, assustado - a anunciação de um sinistro - fremitante. Como um espião, está sentado no bar o visionário. Apesar da hora avançada, já noite escura, ele conserva óculos escudos.
Antes de sair de casa, Heleno engolira aquela pílula - invisibilidade com visão além do alcance. Via tudo e não podia ser visto. Atravessava paredes, e até voava. Escondido nas paredes do apartamento, que agora é um caindo aos pedaços; quando ele sente sede, compra garrafa d'água no lugar mais caro. E no final não a bebe inteira. "Que bobagem!". Os problemas de Heleno estão no quarto em formato triangular, que ele não sabe em qual dos cantos senta para fumar um cigarro - sem que isso incomode os vizinhos. Ele sai, óculos escudos. Passa pela portaria onde o dono do prédio espera um próximo locatário. Heleno já está na calçada: "É melhor parar por aqui." Fuma um cigarro e entra no prédio novamente. Pensa em um canto do mundo que nunca ninguém esteve. Fica dentro de seu quarto, e embaixo da cama... cores escuras. Vermelho, essa não pode faltar nem em sonho. Equilibra os pincéis na mão, está tremendo; aflito com o "des" de todas as conquistas. Magoado com a hora que o quer dominar, tirá-lo do sono colorido em que vive, e que por mais cinza que seja, por mais queimado que já esteja, brilha ao menor raio de luz e paira eterno quando suscitado pelo vento. Heleno está vivendo de Blues chorados na vidraça, olhando a rua, a lã verde, vermelha, amarronzada das folhas das árvores recolhidas. Faz como um lobo enfurescido correndo pela mata, guiando-se pela trilha deixada por outros animais. "Hiper hipótese" - deve ser isso a verdade. Sinos do dia em formato de cores na tela. Ele já pensa na dificuldade da passagem para o outro lado. Em breve, deixar-se-á em casa para sair e ser mais uma peça, mesmo vendo as pessoas preocupadas em pronunciar corretamente seu nome. Em determinados lugares não se é possível usar óculos escudos; colírio é coisa que incomoda demais.
2 comentários:
Este Heleno...
Gosto do que sugerem teus textos, sempre emaranhados numa definição reflexiva.
O que sugere pensar devia ser um milagre, por que gera uma vida que pode morrer nas mãos do Esquecimento.
Abraços, grande!
davi tudo é relento, medo de chuva de vento medo da morte medo do porvir medo dos outros, esconda-se pois vão devorar vc assim mesmo antropofagicamente, martírios de dias sem lugar pra ir deitar-se a cama e sonhar sonhos possíveis deleitar-se com o óbvio das cores fáceis com tudo que somos, mesmo que às vezes nada, precisamos ter fome soluços e vômitos, precisamos de ar puro, Puro!
abs cara mt bom seu post!
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