Domingo, Junho 19, 2011

Honra ao mérito

Heleno enfim caíra; encontrara dentro da superfície clara do dia o fundo do poço - lugar úmido, frio e distante. "Ora, ora, otro poeta..." - alguém disse escondido na penumbra. O pouco de água que havia refletia o pouco de luz que até lá caía, e num instante, se revelou num flash o rosto de um pobre diabo. "Não é possível. Neruda?" - indagou Heleno. "Não filho, sou o diabo travestido de poeta. Volte lá para cima e leve também seus versos. Por enquanto aqui ainda não há lugar para você. Acha que pode escrever riminhas nos portões do inferno? Estás enganado amigo." "Compañero, no soy poeta. Soy pintor." - esquivou-se Heleno. "Ah cabron, es lo mismo. E se não sabes hablar, não suje a língua. "Peixe preso dentro do vento..."Nada, nada, e não sai do lugar." É cego ao ponto de confundir-se entre melancolia e poesia, é burro que não consegue distinguir vermelho de sangue. Perdoa-me chico, mas és como todos los otros. Definitivamente não há nada aqui para você. Nada que possa interessar-se por você. Aqui, no limbo, a realidade está inversa. Ou ainda não sabe que caiu para cima? E é idiota ao ponto de usar páraquedas. Cheio de defesas. É certo que aqui nenhum vírus gostaria de lhe infectar. Essa limpeza mesquinha que traz, aqui, no limbo, só revela sua alma suja. Agora volte para o céu, volte para seus saudosismos, bucolismos, melancolismos e outros mais. Volte para seu mundo de certos e errados, volte para junto de teu pai.

Heleno fora transportado para um campo. Não havia poço, nem sua casa ficava ali por perto. Deitado na grama verde, via a poucos metros, a sua frente, um redondel - arena circular para se treinar cavalos. O animal grande corria com seu pêlo brilhante, crina escovada, latejando os músculos em cada movimento das patas cavucando o chão. Parecia manso; apesar da fúria latente, da natureza selvagem escondida no corpo, os olhos expressavam o adestramento de uma criança preparando-se para receber o título de "honra ao mérito" na escola. "Pobre animal, como pode submeter-se a essa vida, de circulos em torno de piquetes de madeira. Como pode reger a orquestra de seu sofrimento? E como podem achá-lo belo, estando castrado, dócil, preso na infelicidade de um carrossel? Era impossível determinar a idade do animal, tinha o pêlo de cor muito vida, a coluna bem ereta, mas bufava cansado, deixava no chão o rastro preciso das patas, como se houvesse dado apenas uma volta, e como se há muitos anos vivesse para aperfeiçoar seu movimento projetado para a frente, porém sempre em retrocesso.

Acordando, Heleno estava de frente para um de seus quadros. Na moldura estavam colados recados, bilhetes, cartas... Elogios de amigos e desconhecidos para aquela obra, que ficara exposta durante alguns dias em uma galeria no centro da cidade - local bem frequentado pela gente do meio artístico. No canto superior da tela, a pequena etiqueta com o preço. Se custasse dez vezes mais caro, mesmo assim teria sido vendido, só não fora porque Heleno decidira valorizá-lo ainda mais para uma próxima exposição. De alguma forma tudo aquilo agora o envergonhava. Lembrava de como olhava as mulheres que se aproximavam do quadro, de como gozava da sensação de apresentar à elas sua obra imbuído do ímpeto viril pelo qual era tomado. E as madames e gente rica e desprezível que vinham a tecer-lhe elogios... Ele dispensava todos elogios, escondendo-se num tipo de humildade que o elevava ao mais alto pedestal, servindo apenas para mostrar para todo mundo como ele, Heleno, era talentoso, superior, embebido em um coquetel garboso.

Era preciso queimar aquele quadro. Certamente ele jamais poderia contemplar o limbo, jamais poderia descer ao fundo do poço e ter com o poeta, tendo em vista a nobreza das coisas que habitavam dentro dele, tendo em vista a qualidade estética que sua obra assumia para os inimigos do limbo, para essa comunidade olímpica de deuses reunidos para condecorá-lo com honras e méritos.

Naquela manhã Heleno arrumara a cama. Esticara todos os lençóis, um por cima do outro, depois dobrados à altura do travesseiro, e estirada por cima a colcha. Há quanto tempo não fazia isso... essa pequena lembrança de Marta... A ternura da mulher cheirando à limpeza da cama e do quarto. Sentia saudades dessa paz ávida e superficial, sem a profundeza desses mergulhos em poços sem fundo. E ele esperou pelo dia inteiro que alguém entrasse no quarto e pudesse ver aquele Heleno tranquilo, satisfeito em sua vida caseira - um homem de verdade, merecedor até de uma medalha.

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