Quinta-feira, Maio 26, 2011

Um mergulho de pára-quedas em um poço atrás de um grande peixe

Heleno foi avisado pelo silêncio das cartas e dos telefonemas. Esse extraviado recado dizia que Marta estava morrendo; levando tiros na guerra junto de seu amor revolucionário, compadecia na trincheira. "Quase morrer é pior que a própria morte" - pensava ele. "Quando que isso irá acabar? Está se estendendo por demais. O mesmo lamento que choraminga infinito."

Faz um tempo que Heleno caira num buraco sem fundo. Debruçara-se à beira do poço da sombra, queria, como Neruda, "pescar luz caída com paciência". Desesperado, desesperou-se, e não pôde segurar-se; até hoje não para de cair - em busca de um grande peixe. Todos já estão cansados. Terminaram as buscas, do velório desistiram. Não fora dado como morto pois o corpo não foi encontrado. E agora, além de Heleno viver essa própria quase-morte, ainda recebe a notícia de uma Marta quase morta. Talvez se somar duas "quase-mortes" consiga, quem sabe, uma morte copleta - ou quem sabe vida plena. Difícil... os "quase" não se anulam. Isso impede que o caixão seja fechado e jogada por cima a terra.

Já acostumado com a queda, o que agora mais incomoda é o vento constante na cara, a vontade de fumar, e o isqueiro que não acende a chama na ventania de um corpo solto no espaço em alta velocidade. Incomunicável, faz Heleno a tentativa de encerrar a história na cabeça. Já tentou por muitas vezes, durante essa eterna queda, matar-se com o poder da mente. Mente: fraca para explodir a cabeça, forte demais para deixar-se apagar.

Como era confortável o zelo de Marta, sua espera sonolenta de Heleno voltando do trabalho. Sua luminária companheira, sua pele como o tecido de um órgão sensível. Seus olhos grandes, atentos para qualquer vacilo do amor. Sorrindo, sempre sorrindo, até o dia em que, passeando pelo pátio do predio, observou o poço aberto, com um aspecto sombrio, engolidor como a garganta de um monstro marinho. Era no parapeito de pedra que estava o banco preferido de Heleno, onde ele se balançava entre o chão e a sorte.

Quantos sonhos estranhos... Não eram pesadelos. Não tinham nada de assustador nem de temerário. Porém, deixavam sempre uma sensação estranha, deixavam um certo nada suspenso no ar. Marta acordara, Heleno, recém-chegado, ainda tirava os sapatos; as meias fedorentas de um dia de trabalho tinham um cheiro agradável pois eram um sinal, um silvo que anunciava a chegada de seu homem provedor. "Heleno, meu amor..." - dizia Marta cheia de sono. Ele debruçava sobre o seu corpo e a abraçava forte: "Saudade amor..." A voz carregava certa melancolia, o que fazia Marta lembrar-se do sonho que ainda pouco tivera. Porém se resignava acreditando que aquilo em Heleno era apenas cansaço da rotina.

Naquele dia Heleno acordara rijo. Logo cedo decidira entregar-se a alguma loucura. Como fazia frio, vestira sua camisa de força, legado de seu avô, imaginava ele - caçador solitário, alquimista, amante do mundo, traidor da família. Ou seria o avô um velho simpático, apegado à pequenos consertos em uma improvisada oficina no quintal - a panela que furava, o brinquedo quebrado do filho, alguma engenhoca que pudesse facilitar o trabalho da mulher no dia-a-dia do lar. Heleno não sabia ao certo sobre o pai de seu pai, apenas que ele, possuindo boas habilidades de pescador, certo dia, pescara um grande peixe. Mas eram apenas histórias, vazias de qualquer sentido.

Marta, agora distante, entre um tiro e outro do silêncio, cochilava pensando em Heleno. Mantinha ainda o zelo de sempre. Preocupava-se com a fragilidade dele. Com certas tendências, certa valentia e coragem para atitudes impensáveis. Enfim dormia, e com surpresa era tomada por aquele sonho antigo. Descobria-se visionária: daquele dia que, saindo no pátio de seu antigo prédio, olhara o poço e pensara vagamente o pior dos saltos; agora via com olhos adormecidos, fechados para dentro, Heleno caindo sem parar. E assim que acordou decidiu, como poucas vezes fizera, pegar o telefone e ligar para Heleno.

"Alô, Marta? Engraçado, imaginei mesmo que fosse você - a essa hora." Ela aflita perguntou chorosa: "Você está bem?". Ele disse: "Sim, não tenho pintado, mas consegui um emprego. ""Estou aprendendo a viver sem você" - como diz a música né...". Marta assustou-se com a descontração dele - como daqueles infiéis que zombam de Cristo na cruz, e despediu-se: "Bom saber que está bem. Adeus, se cuide, e não fique rodeando beira de poço!" Ele, afim de provocá-la terminou dizendo: "Ah sim, pode deixar que ando carregando um pára-quedas. Saudades Marta, não se abata com essas suas previsões. Parece que as coisas por aí não estão muito fáceis, então se cuide também. Beijo!" - E ele desligou o telefone voltando-se para a Tv que, na madrugada, entretia-o com filmes de aventura erótica.

1 comentários:

Davi disse...

"Talvez se somar duas "quase-mortes" consiga, quem sabe, uma morte copleta..."

esta parte diz muito.

a complexidade do número 2. abraço.