Oh cidades! Consumidoras da juventude.
Subiu à porta traseira do ônibus um homem velho com seus velhos trapos - ferros, lonas, corda e uma mala de viagem improvisada costurada com diversos retalhos de panos grossos. "Dê a partida motorista, acelere!" - gritavam os passageiros. Obediente, o ônibus arrancou. O homem desequilibrado, mas ainda agarrado à porta, quase caiu. E todos gritaram exaltados: "Ei! Pare o ônibus motorista!". Acima do tempo está somente a morte. E em cerca de dez intermináveis minutos o homem velho estava com seus velhos trapos dentro do ônibus. Amarrou aqui e ali, ajeitou da melhor forma para que a bagagem não atrapalhasse ninguém em nada. Usando óculos escuros, ele, silencioso, silenciado, porém sorrindo discretamente, sentava-se humildemente agastado pelo tempo que o fazia vítima e culpado de sua longevidade.
É preciso ser jovem, mas é um mal perigoso essa juventude. É triste ser velho; deprimente é ser velho na juventude; ridículo é envelhecer com juventude. "Haja como um adulto vovô! Seja adulto meu filho." - é o que dizem por aí.
Os velhinhos que durante a vida, seja por riqueza, seja por privação, puderam acumular algum dinheiro, andam pelas calçadas acompanhados por bonitas moças vestidas de branco, maquiadas, perfumadas, com o cabelo bem feito - moças jovens. Os velhinhos pedem para atravessar a rua, pedem para passar por aquela outra calçada, aquela do prédio onde morava um grande amor, aquela onde havia um movimentado bar no qual se reunia a sua juventude. Diz então a moça que os acompanha: "Não vovô, vamos por essa aqui mesmo, é perigoso atravessar a rua."
Na praia as crianças se interessam por um estranho; um homem de barba e cabelos compridos, de andar vago, postura de australopithecus, mais parece um náufrago. Elas o acham engraçado, sentem-se felizes com aquela descoberta, querem, como um astronalta, fazer contato. No chão há um quadrado, um grande quadrado de pano, de um pano bonito e decorado. No entanto, para estes jovens desbravadores qualquer território de crenças, cores, formas ou panos quadrados é limitado, por mais que seja confortável. Elas, as crianças, correm atrás do estranho, o chamam de "moço", pois por algum subversivo motivo ainda vêem familiaridade naquele homem. A mãe as alcança, agarrando-as fortemente pelo braço; desesperada fica a mulher, preocupada com os filhos, protetora, despeja neles os detritos de sua infância: "Não falem com estranhos, lembrem-se da história do velho do saco."
Na madrugada, em casa, uma criança chora, aterrorizada corre para o quarto dos pais: "Mamãe, Papai, estou com medo do monstro". "Fique aqui filho, na cama da Mamãe e do Papai não há monstros" - diz a mulher ao mesmo tempo em que constrange-se na escuridão do quarto por pensamentos soturnos acerca da vida de um casal.
É claro que nisso tudo há muito de exagero, mas Heleno, vinha-lhe ocorrendo momentos em que sentia-se como um daqueles bichos, que os ambientalistas, seus protetores, lhe rasgam a pele, inserem por debaixo um chip, e depois o soltam na mata para que viva protegido e livremente.
2 comentários:
Realista o teu texto. Você pintou bem uma imagem quase lírico-urbana desta idéia filosófica que teve. Isso, é claro, sobre meu ponto de vista.
"Na madrugada, em casa, uma criança chora, aterrorizada corre para o quarto dos pais: "Mamãe, Papai, estou com medo do monstro". "Fique aqui filho, na cama da Mamãe e do Papai não há monstros" - diz a mulher ao mesmo tempo em que constrange-se na escuridão do quarto por pensamentos soturnos acerca da vida de um casal."
gostei desta parte aqui, a analogia ficou perfeita.
grande abraço
Davi, sempre que posso,as vezes até por necessidade de ler boas histórias, passo por aqui, são tantas nossas carências por estas infindas estradas, que fica difícil, porém não imperceptiveis, notar o que esta em nossa volta, e essas seus posts,são assim cheios de estradas, cores, pessoas indo e vindo, que me enchem de satisfação, pois vejo em você algo que tenho: perceber no cotidiano o que olhos, ja acostumados pelo tempo, não conseguem captar, você sente no ar essas pequenas gotas de orvalhos que a noite deposita no chãos por onde pisamos!
mt bom seu texto...
Uma vez no carnaval em miguel pereira fomos apresentados pelo guilherme canedo, que na época ficava com a tereza eliza, que até onde sei é irmã da sua namorada ou mulher não sei ao certo. mas acho que vc nem deve lembrar... hj eu acho que vi vc passando no ônibus que subia a serra de miguel pereira... bom eu acho que era vc... bom, cara abs pra ti e fico feliz que vc tem curtido as coisas que escrevo!
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