Terça-feira, Abril 12, 2011

Terça

E no terceiro dia, após ter criado a segunda-feira, Deus viu, que para o trabalho, Heleno não era bom. E então o Senhor disse: "Heleno, Heleno... Filho querido... Toma-te um rumo. Toma-te um rumo, mas que seja um rumo não seja o teu." Espantado, e até arrependido, decepcionado com a demasiada liberdade de vossa criação, Deus iluminou Heleno com ainda mais um sopro de sua graça, e ele, anjo caído, ainda mais liberto se tornou. Do casamento do amor com a guerra Heleno nasceu; do ventre de um vulcão qualquer fora cuspido para fora. Caíra nu, como macunaíma, nascido grande, já com pelos e vontades de homem maduro; naquela terra seca, seu defeito era a necessidade de água, água limpa e da mais pura. Certa vez, sentira sede, porém como havia-lhe sido recomendado e proibido por teu próprio pai, ele segurara ao máximo o nó na narganta. Da água que havia no paraíso, sulfurosa, não se podia beber, nem banhar-se. Heleno, desobediente pela sabedoria divina que recebestes dos céus, ajoelhou-se à beira do lago cor de prata, entorpecido pelo vapor da água, juntou então as mãos em desenho de concha, mergulhou-as à profundidade de um palmo, e emergiu-as do lago até a boca - intoxicado, morreu. E Deus chorou.

Na terra ouviu-se cantar entre um dos homens: "se houvesse deuses, como tolelaria eu não ser um deus. Logo, não há deuses." Em seguida, como se Heleno ouvisse a palavra de fechamento do sermão do padre de um antiga igreja, recebia em um lapso de sono: "E assim falou Zaratustra."

Heleno acordara com a cabeça magoada, como se houvesse reencarnado, e um gosto pendendo entre o azedo e o amargo na boca. Havia cheiro de fumaça pela casa. Levantara a caminhar até a cozinha. Perdera o avião!

Um por todos, todos por um. Assim começava o dia. Gritando com o peito embrutecido e revolucionário. Bule de café fervendo que se espatifa no chão, material de um metal pesado - um power acorde de um disco punk que devastaria qualquer exposição clássica que tentasse apartar um filho daquela pequena e brava grande música. Um dia até se liga para saber se ocorreu tudo bem no tal evento, dá-se alguma justificativa, ou até quem sabe diz-se que do valor que tem para o pintor os quadros, que é um valor mais misterioso e secreto ante ao som de um reclame clichê: "Não Marta, não quero mais ir até aí. Perdi a hora, foi só isso o que aconteceu: perdi o avião. Não haverá mais quadros meus na exposição. A beleza, você devia saber, está fora do tempo e do espaço, como você mesma mulher. Não longe percebo que sua beleza não está afastada de mim, de forma que eu - mesmo que seja "também" - a crio. Portanto a beleza que há em você Marta, descubro somente hoje que há em mim. Afinal, não fostes tu, mulher, tirada de minha própria costela?"

Um quadro atravessado, por ele próprio, Heleno em auto-retrato é imoral, é dúvida de se é podido ou não pintar-se assim ou assado. E só rasgando a tela que carrega o espaço e o tempo que se leva para pintar que é possível, para ele, mostrar-se por ela, mas fora dela, no além do mais.

2 comentários:

Davi disse...

Da criação do mundo ao avião perdido, gosto muito desta singularidade da tua prosa. É ótimo ler-te.

Dani Santos disse...

tua escrita tá cada dia maior, david.
do gênesis à Nietzsche, da sede à descoberta da beleza, fora do espaço, do tempo, de lado de fora e por entre o ser. um convite ao mergulho ao que estamos sendo.
me fez lembrar um livro do Richard Bach, que se chama Longe é um lugar que não existe. sobre o vôo-mergulho na trajetória de ser.

abraços!!!