Na solidão de um país estrangeiro, às vezes, presta muito por em prática idéias consideravelmente estranhas, e até bizarras. Tem-se assim a finalidade de sublimar vontades repletas dessas mais desprezíveis bizarrices. Despir-se de toda a roupa e nadar pelado, tem-se vergonha; assaltar bancos, enriquecer de repente, tem-se medo; curiosidade da morte - suicidar-se? Se é muito inseguro quando se tem segurança. Entregar-se aos mais promíscuos heróticos, não mesmo. O que irá se pensar de si mesmo? É preciso ideologia. É preciso dividir com um lençol a cama dos pais da cama dos filhos, pelo menos. É preciso também um "tapa sexo", um biquini ou coisa do tipo, para que ninguém descubra o fosso malígno que se esconde ali embaixo. É preciso palavra - com sentido, não sem sentido, nem ilógica - que camufle a inutilidade desse narcisismo urgente por realidade, e que se comunique.
Marta acordara cedo, tomara o ônibus até um bairro recatado, protegido à sombra de laranjeiras, de moradores que não eram dela conhecidos: muitas crianças, idosos, gente que sofre do coração, um e outro doido varrido, moças e rapazes bem apessoados, mulheres grávidas, mães de recém-paridos e uma mendiga jovem e nua. Marta descera sem saber ao certo onde descera. Posicionara-se na calçada, próxima à banca de jornal. Iniciou ali a realização de um plano macabro, mas que mudaria a humanidade daquele bairro. Como quem lança uma "bomba de plasma desorganizador de pensamentos convictos", estendendo a primeira mão, cantando em voz alta: "Mas quem tem coragem de ouvir, [obrigado senhor, bom dia senhora] amanheceu o pensamento..." Marta ia a distribuir panfletos em branco, assaltando passantes com sua linguagem[como muitos dizem] incomunicante.
"Minha filha, o que faço com isso?" - perguntava a passante. "Leia o que a imaginação lhe permite senhora!" - respondia Marta. E fixa no papel, com a expressão indagada, a dona titubeava às vistas d'olhos entre o papel e Marta, saindo em passos lentos e trêmulos, tateando o chão sem o auxílio do olhar que continuava desorientado, desesperado por uma orientada imagem. Indagava-se: "Não vejo nada, será que é a idade? Não me graduei o suficiente eu acho. Não não, não é isso, já sei: exercitei-me pouco nas lições de arte. Pode ser uma figura modernista, mas panfleto em branco não é coisa moderna. Romantismo? E o que há de romântico nessa besteira. Se ainda fossem flores... Pode ser surrealismo, mas onde é que está a mistureba de cores? Por quê essa rapariga me faz assim de besta, a me entregar papel vazio, sem utilidade, nem informação alguma? Ah! Está descoberto. Sabia que sabia. O branco é a mistura de todas as cores. Disco de Newton minha filha, não conhece? Pronto, imaginei, acertei. E eu achando que a resposta estava na arte... É questão de lógica, é matemática, é física. Mas que destrato dessa moça, empregar a excelência das ciências nessa coisa débil de panfletos em branco. Se eu pudesse eu matava essa gente desocupada. Não consigo imaginar como alguém pode ser tão débil, talvez frágil ou deve mesmo ser debilitada."
Marta sabia de certas coisas: durante a vida, como personificação sábia e bela, seria ela a rainha a se curvar para o povo. E seria odiada por ser tão adorada. "Como deve estar Heleno? De tanto me amar passou a odiar-me." - pensava Marta. "Porque causo confusão nas pessoas? Sou gentil e delicada. Se a vida é feita também de estragos, que sejam encantados estragos. Ninguém entende mesmo. Vou-me embora. Mas antes... Apenas mais uns papéizinhos." Esticava as mãos mais algumas vezes, o sol já intensificando os raios, Marta parecia estar a murchar-se: "Obrigado. Obrigado. Obrigado senhor. Adeus." Tomava o ônibus, sentava no último banco, junto daqueles que moram só, encostava a cabeça no vidro, e, para quem a olhava da rua, era apenas uma pobre moça triste.
Marta acordara cedo, tomara o ônibus até um bairro recatado, protegido à sombra de laranjeiras, de moradores que não eram dela conhecidos: muitas crianças, idosos, gente que sofre do coração, um e outro doido varrido, moças e rapazes bem apessoados, mulheres grávidas, mães de recém-paridos e uma mendiga jovem e nua. Marta descera sem saber ao certo onde descera. Posicionara-se na calçada, próxima à banca de jornal. Iniciou ali a realização de um plano macabro, mas que mudaria a humanidade daquele bairro. Como quem lança uma "bomba de plasma desorganizador de pensamentos convictos", estendendo a primeira mão, cantando em voz alta: "Mas quem tem coragem de ouvir, [obrigado senhor, bom dia senhora] amanheceu o pensamento..." Marta ia a distribuir panfletos em branco, assaltando passantes com sua linguagem[como muitos dizem] incomunicante.
"Minha filha, o que faço com isso?" - perguntava a passante. "Leia o que a imaginação lhe permite senhora!" - respondia Marta. E fixa no papel, com a expressão indagada, a dona titubeava às vistas d'olhos entre o papel e Marta, saindo em passos lentos e trêmulos, tateando o chão sem o auxílio do olhar que continuava desorientado, desesperado por uma orientada imagem. Indagava-se: "Não vejo nada, será que é a idade? Não me graduei o suficiente eu acho. Não não, não é isso, já sei: exercitei-me pouco nas lições de arte. Pode ser uma figura modernista, mas panfleto em branco não é coisa moderna. Romantismo? E o que há de romântico nessa besteira. Se ainda fossem flores... Pode ser surrealismo, mas onde é que está a mistureba de cores? Por quê essa rapariga me faz assim de besta, a me entregar papel vazio, sem utilidade, nem informação alguma? Ah! Está descoberto. Sabia que sabia. O branco é a mistura de todas as cores. Disco de Newton minha filha, não conhece? Pronto, imaginei, acertei. E eu achando que a resposta estava na arte... É questão de lógica, é matemática, é física. Mas que destrato dessa moça, empregar a excelência das ciências nessa coisa débil de panfletos em branco. Se eu pudesse eu matava essa gente desocupada. Não consigo imaginar como alguém pode ser tão débil, talvez frágil ou deve mesmo ser debilitada."
Marta sabia de certas coisas: durante a vida, como personificação sábia e bela, seria ela a rainha a se curvar para o povo. E seria odiada por ser tão adorada. "Como deve estar Heleno? De tanto me amar passou a odiar-me." - pensava Marta. "Porque causo confusão nas pessoas? Sou gentil e delicada. Se a vida é feita também de estragos, que sejam encantados estragos. Ninguém entende mesmo. Vou-me embora. Mas antes... Apenas mais uns papéizinhos." Esticava as mãos mais algumas vezes, o sol já intensificando os raios, Marta parecia estar a murchar-se: "Obrigado. Obrigado. Obrigado senhor. Adeus." Tomava o ônibus, sentava no último banco, junto daqueles que moram só, encostava a cabeça no vidro, e, para quem a olhava da rua, era apenas uma pobre moça triste.
1 comentários:
davi, gostaria de agradecer a visita ao blog.
sua escrita é mt sensível, e as palavras ásperas, me faz sentir a inquietação de marta, por essas ruas estranhas, tentando sentir as pessoas que destoam de sua racionalidade e compreenção, estamos ali, presentes e ausentes, colorindo e se descorando sobre o olhar insosso dos perâmbulantes que se ignoram. a essas cidades grandes, que medo dessas amarguras virais que essas cidades afloram...
abs, davi, e tenho acompanhado essa história a algum tempo...
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