Segunda-feira, Abril 04, 2011

Quarta-feira amaldiçoada

Heleno não conseguia vender um quadro. Absorvido por algum trabalho de magia negra, temia que esses feitos pudessem ter algum fundamento. O panfleto que achara na rua dizia: "BENÇÃO ESPIRITUAL - Faz e desfaz qualquer tipo de trabalho." "Será que Marta fizera algo para mim? Não devo ter achado esse papel no chão por acaso. Ela deve ter feito algum trabalho para me ferir. Tenho sentido dores de cabeça. Estranho... Ela sempre se ligara a essas coisas de astrologia, cartas, supertições... Maldita seja essa gente que entrega esses panfletos de macumba pela cidade! Marta com certeza deve ter ligado para um desses e marcado uma consulta para fazer meu boneco de vodu. Sinto isso."

Heleno descia as escadas abatido. Não as escadas de sua velha casa, que fora lar também de Marta. Saía de uma entrevista de emprego. "Elano, o que falta para você..." - dizia o gerente do setor de comunicações que o avaliava em entrevista. "Senhor, é Heleno." - reclamava ele, entrevistado. O gerente proseguia. "Sim, eu sei, Heleno. Como eu dizia, o que falta para você é saber comunicar-se. Não posso contratá-lo. Agradecemos a disponibilidade, informamos também que candidatos reprovados podem voltar em três meses e passar novamente pelo processo seletivo da Cococón. Boa sorte, até mais e obrigado." Heleno saía decepcionado consigo mesmo e odioso daquele homem que o chamava de "Elano", de "deficiente mudo" ou "analfabeto funcional de expressividade". "Vai à merda babaca!" - Heleno tinha muita vontade de dizer isso. Dissera ao homem com um riso simpático: "Obrigado, se não fosse a comunicação, chefe". E saíra do escritório. "Expressivo? E como eu iria pedir para responder à entrevista com tinta e tela? Não falo, falar o quê? Marta que é boa nisso. Gosta de apresentar-se. Em seu país deve distribuir "santinhos" com sua foto, nome, descrição e endereço para correspondência. É quase uma puta! Eu que não me vendo feito ela, nem meu corpo, nem minha voz e nem expressão nenhuma."

A casa era escura. Já pela uma da tarde ainda não havia sido aberta. Não tinha cheiro de almoço sendo feito, e nem roupa estendida na pequena área. Os azulejos do banheiro, desavisados, ainda refletiam a claridade da noite. Heleno acordara cedo. Mais cedo que sua própria casa. E tudo isso para conseguir trabalho. Como é esforçado esse rapaz. Para pintar, o máximo que fazia era dormir com o raiar do dia, depois de uma noite em claro. Profundamente sozinho, tinha apenas a proximidade fantasma de Marta - sua eternamente disponível amada.

Ligara para ela: "Oi Marta, é o Heleno. Tudo bem?" Ela, ou se fingia, ou era agora mesmo uma autêntica estrangeira: "Heleno? Que Heleno? Conheço tantos..." Heleno Marta, dos quadros..." Ainda sonâmbula, atendia o telefone não de toda acordada. E com a voz arrastada, resmungando indagava a Heleno: "Cara, como você conseguiu meu telefone? Que saco." Heleno constrangido tentava dizer algo: "Eu consegui. Fiquei na dúvida de te ligar ou não. Achei que poderia realmente ser ruim, mas pensava que poderia também ser bom. Então liguei. Agente poderia conversar um pouco, sei lá..." Marta era dura com Heleno, jogava-o da árvore feita a mãe-passarinho: "Heleno, agente até poderia conversar, mas não tenho nada para conversar com você." "Ah Marta! Agente pode falar de qualquer coisa, nada de especial. Como vai o trabalho?" Ela respondia: "Vai bem." - e calava. Heleno assustava-se com o silêncio que mantinha-se após a resposta de Marta, e mais uma vez se justificava: "Eu não queria te causar mal nenhum ligando, mas parece que já causei né. Só queria conversar. Coisas corriqueiras..." Marta acordara para um pesadelo. Sentia raiva de Heleno por isso, queria livrar-se: "Heleno, se algum dia eu encontrar você na rua, não vou chutar sua cabeça, mas não tenho nada para conversar contigo cara. Tenho trabalho hoje à tarde e pretendo estar bem até lá." Ele terminava: "Tudo bem. Desculpe eu ter ligado. Boa sorte e tchau." "Imbecil!" - Marta falou quase dando um grito após desligar o telefone. "Escrota" - Heleno gritou o mais forte possível em seu pensamento, apesar de que colocasse o telefone no gancho com um monástico sorriso.

"Ufa! Pelo menos ainda tenho cigarros. Por culpa dessa mulher desgraçada, meu último trocado gastarei com cerveja. Talvez eu morra de fome e intoxicado por álcool. Tomara mesmo. Uma coisa é certa: sem pagar o aluguel, se eu for despejado, vou virar andarilho, com saco nas costas, sujo de carvão, fedido, barbudo e tudo. Quero ver o que Marta vai sentir quando me encontrar andando lá por seu país. Mas também serei tão livre que não mais quererei à ela. Bêbado, vou dizer: coitada Marta, como sofre, está pálida e parece que te encheram de cêra. Eu tenho nadado nu no chafariz das praças, transei com mais gente do que em todos os anos que estive atrás de ti. Ganhei dinheiro com uns assaltos e ando por aí, até o dia em que a morte venha ao meu encontro ou que eu vá ao encontro dela - Isso mesmo, direi exatamente isso à ela. E depois direi que preciso ir, e irei."

"Mas que dia amaldiçoado..." - pensava Heleno voltando para casa depois da cerveja.

1 comentários:

Dani Santos disse...

Ah, David... bom voltar aqui, à esse imenso baile de cores, trilhas, movimentos, encontros e desencontros. palavra-pólvora. retratos abertos para o tempo.

Abraços, abraços.