Terça-feira, Março 22, 2011

Sexta-feira baleada

Em concordância e entusiasmo com as fantásticas visões fantasmagóricas e românticas acerca da realidade, palavras tecidas por fios de ouro mesclados com cor de ferrugem, cor de mofo, envelhecimento e morte, também as escrevo aqui, pois "caminho como tu [Neruda], investigando a estrela sem fim". Mais parecem esses quartos fechados, desse teatro trágico, com lugares de tortura, onde mesmo depois de décadas, a memória sufoca o esquecimento sabendo que o resgate mesmo chegando tarde é ainda sim um resgate - de corpos e almas.

Engolido por uma baleia Sexta-feira, Heleno, alojado na barriga dela, próximo do ventre, ao ver tudo que o monstro engolira, ele percebia como era ela bem nutrida. Comia com variedade, e comia muito bem. Percebia ele que gozar de uma Sexta-feira é deixar-se ser engolido, é nadar nos líquidos quentes dos sucos gástricos; ser triturado, dissolvido até que seja posto para fora, expelido.

Como se parecem as cidades - consumidoras da juventude. Jovens de casaco cor escura, suéter, calçado social, meias pretas. Recortes de uma pequena Londres recortada de jornais parisienses. Cabelos louros entre os carros, óculos redondos - de grau. Mãos acima da cabeça, cachos negros, tufos embaraçados, panos vermelhos a rodear a tez, cintura e articulação do joelho. Peitos decotados, bundas pressionando os bolsos traseiros esfarrapados, coxas calorentas usando saias, luas fulgurantes encrustadas nos vincos de calças apertadas - jeans. Massa! Pão e mais nada. Cerveja esquentando nos desprezíveis copos plásticos, drinks especiais envelhecendo, agitando-se em garrafas pets. Gritos ferozes de alegria, gritos alegres de ferocidade, mão socando o vento, corpo suicidando-se no ar - brilhantes manequins em movimento.

Como se parecem as cidades - consumidoras da juventude. "Babilônia! Babilônia! Cobrador, não esquece hein, vou ficar na Babilônia. O bagulho é doido neguinho." "Fica quieto aí rapá, tu tá chapado." - dizia o amigo do lado que por fim sintetizava: "Mas tu fica bêbado muito rápido..." O outro constrangia-se: " Ihhh... Eu tô bebendo desde cedo doido, bebi duas escondido, e ainda... Ah! Sabe aquela hora que eu sumi? Então... voltei doidão né... Háhá! Tá ligado né..." O amigo do lado apenas dava um sorriso discreto, cheio de seriedade.

Como se parecem as cidades - consumidoras da juventude. No bar cubano ao som de punk rock... "Cara, sabia que em Cuba ainda existem campos de concentração para homossexuais? É meu! Campos de concentração mesmo, com uniformezinho e tudo. Havana sempre foi o depósito de todo o puritanismo americano. A idéia de paraíso caribenho... Saca?" Dizia um jovem revolucionário. Pensava consigo um outro amigo: "E há alguns dias atrás era carnaval; corpos jovens, sorridentes, energéticos e caribenhos. Tantas mulatas gostosas!"

Findada a noite, sobram cizas e guimbas - lixo para se jogar fora. É o que resta de prazeres queimados. Quer queira quer não, a baleia nos joga para fora. Expatriados na cama, no sono, tem-se um corpo busuntado e um certo gosto de óleo - de peixe - que vai do estômago à boca em circunvoluções desordenadas. Longe de seu país, por inúmeras vezes Marta dormia assim, nauseada. É a liberdade de não ter por perto pai, nem marido, nem chefe, ou seja lá quem seja. É a contra-liberdade: desgraça da ausência de tudo isso. Contudo, é chegado o sábado (meio domingo meio dia de trabalho), que ao acordar, dando-se uma volta pela praia, juntam-se moradores e turistas parados diante da baleia morta, encalhada na areia dourada. 

2 comentários:

Davi disse...

Olá David!!

Lembro de teu blog, teu talento excepcional para criar imagens com conteúdo! Tua prosa, meu caro, é formidável, que bom revê-lo, e lê-lo!
Este texto parece uma imagem que guardo da Lapa, tenho um poema similar a esta idéia, foi ótima leitura passar por aqui.
Seguindo teu blog!

Agradeço o carinho em decifrar meu poema, tens uma boa lógica.

ps.: notei que ainda há o link do meu antigo blog aqui, o Espírito da meia-noite, se for do teu agrado pode tirar, este blog não existe mais!Abraços.

Guilherme Canedo disse...

Fala Davi, meu camarada...

Quanto tempo não nos vemos, e igualmente à você tenho lido seus textos, suas prosas, e digo desde já, que estão cada vez melhores....

Achei formidável a sua capacidade de entreter, de chamar a atenção... achei genial!

Vamos marcar de tomar umas cervejas..!
vamos trocar umas ideias, sinto falta dos nosso papos mirabolantes.

abraços