Heleno voltava para casa, após um passeio numa manhã de sábado ensolarado. Desde que Marta fora embora não conseguira mais pintar. "É insuportável!" - Gritava. Parado frente a tela, antes havia acordado, saído para uma curta caminhada, não bebera na noite passada, nem mesmo saíra de casa, e mesmo assim estava exausto. Com os pincéis na mão sentia-se um escritor analfabeto, cheio de idéias e incapaz de desenhá-las. Falava para sigo mesmo: "Desisto Marta, não vou pintá-la." Porém, mesmo a tela em branco, esta tinha a cor do silêncio, do gelo, ou "...do invisível" - como já lera havia tempo em um livro de Mário Quintana. "Ah, não quero mais. Sábado não é dia de trabalho." Mas que trabalho? Pintar quadros? Nunca ganhara um tostão por isso. Tinha Heleno apenas o comentário de gente que era, sem sombra de dúvida, muito mais amigos do que críticos de arte. Mal entrava em casa - depois de ter se degladiado com a tela que ao comprá-la era aparentemente crua, logo em seguida, sem almoçar, saía. "Definitivamente, sábado não é dia de trabalho, nem intelectual, nem pessoal e nem nada. É dia de beber, em boteco de calçada; aproveitar o dia a olhar toda a gente que passa."
Bundas, seios, zíper aberto, biquinis cavados. Saias - longas, curtas, bonés, chapéus, charutos, cachimbos e cigarros. Coxas, pernas, sapatos, chinelos e sandálias. Gente solteira, em grupo ou casados. Olhos castanhos, verdes, ardentes, vermelhos, chapados, felizes e amuados. Mundos e mundos, detidos ou em fuga.
Heleno queria tudo, tudo que pudesse absorver, tudo o que seu corpo pudesse suportar jogado em uma cadeira de plástico, no meio do público. Entre um copo e outro revolucionava o mundo, fundava de seu magnânimo observatório a nova moral depravada. Sua juventude se fora com Marta, assim como sua audácia de concretizar imagens mantinha-se com grande vacilo resignada. Desejava tingir os pelos do corpo, pintá-los de branco, aspergir a pele com pintas de ferrugem e aposentar-se. Não teria vergonha de usar boina, cantar garotinhas e nem de tossir alto; sem pensar que ao invés de desgastar-se lutando em manifestações por passe-livre, já com o direito concedido pela imobilidade da velhice, poderia andar de ônibus o dia inteiro e sem pagar nada. "Ó triste juventude, como é triste a velhice..." Heleno anotava a frase no guardanapo da mesa, e era tudo.
Heleno, pobre Heleno, não sabe viver de momento presente; quer ter o que não tem, estar onde não pode, saber o que não sabe. No domingo esperou a segunda, na sexta-feira queria o sábado... Enquanto Marta dormia ele pintava, agora dorme para sonhar com Marta. "Mas tenho percebido uma coisa." - dizia ele - "essa vontade frenética por felicidade só vem se dando aos sábados." Engenhoso ele é em suas hipóteses "virtuales". Tão culpado que não pode se culpar de nada. E o que são para ele os outros dias - comuns - da semana? Ele que se diz tão pre-ocupado com trabalho...
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