O amor, impossuidor de essência. Ele move-se na mesma indescência marulha do vento, desembestando com o cabelo alinhado e surpreendendo na saia da moça. Um pálido de olhos esbugalhados pronto para rir como um louco ou sentir delicado o canto seguido pela pequenina e tímida caravana de lágrimas de um louco triste. Cumpre mais uma vez o movimento das vagas. É o amor um daqueles que não podendo ter tudo, optara ferozmente pelo nada para não dizer que por nada optara. Resignado por saber dessa não existência de totalidades, é em partes, crente por conhecer, como num ato revelado, num milagre, a beleza do que é "triste" como um aprendizado para adaptar-se, quando não, restam as feridas de tanto fugir da tristeza. O amor ainda é a ventura egóica de habitar-se no outro, para um espírito cigano, é a estrada, é a sorte, feita e refeita no diagrama de estrelas, nas notas discretas da flauta; o amor não tem casa, o amor não mora. Teme-se-o na noite, de paletó e cravo na lapela, é uma figura distinta pelos seus caprichos, vaidades e arrulhos - Ogum e sua armadura com atavios no capacete que esconde a parte divina da face em recorte humano de meia-lua. Passado o azul da noite e sua prata, quando o sol surge rasteiro, há amor em passarinhos, carícias serelepes. Nessa aparição do amarelo dourado, vê-se uma praça escrita à caneta tinteiro com versos saudosistas e ares de uma manhã assobiada alegremente por seus idosos que gracejam nas conversas pendulando sobre foscos tamboretes de madeira. Nesse exato momento de luminosa visita breve que nos faz a primavera, intuímos sobre os sentimentos espontâneos que se inspiram nas vestes curtas e despojadas com vincados que exuberam a silhueta do corpo quando contra este o vento imprimi força e revela-o, e o verde se espalha exultante quase não se contendo de demasiado exuberante para explodir em cores. As estradas tomam ares espectativos bem como nos causa o som tenso e magnífico que, já iniciado o espetáculo, velando pelo algo sagrado, avisa que é chegada a hora de se abrir as cortinas em algum breve instante que exatamente não se sabe quando, mas o prelúdio certifica de que a qualquer momento elas irão se abrir, prelúdio este que climatiza o momento em que se ensaia em pensamento o beijo na mulher já conquistada. Algumas flores apressadas, desprovidas da paciência da espera vão se espalhando pela relva como minúsculas estrelas róseas estampando o manto verde do céu. Diferente de um dia como esses que eu passara, verificando quais as cores predominavam e sentindo com muito medo a interrogação a cerca de ter-me distraído e perdido o abrir das cortinas do espetáculo primaveril, sentamo-nos compartilhados com a grama da praça - neste dia, diferente também era a praça - à espera de um amanhecer que estourasse o sol e explodisse flores na mais potência orgástica, cantamos com a mais forte voz em grupo e afinada, falamos com tom sutil em acordo com a doçura de tantos sorrisos, enfatizando de uma forma muito verdadeira as palavras que curvavam-se para pedir um beijo e beijar a mão de alguém, fazíamos como nunca ninguém fez, mas da forma que nos parecia que desde sempre assim fizemos. Quando terminada a festa e o povo indo embora, agora vinha ainda sonolento com o frio suave que a noite recolhia junto com a cauda do seu manto negro azulado, vinha um sol de remanso acalmar tanta euforia e acalentar escondido entre a névoa, dando uma claridade branca caindo para até o cinza nublado, os corpos tão cansados, sendo silenciados por uma leve e tranquila despedida, após seguindo afastando-se como as flores que sempre morrem e sempre nascem, estando certos de que assim é a vida e de que o amor, este a comove.
Segunda-feira, Agosto 10, 2009
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9 comentários:
Cara... Perfeito!
Que saudade de ler seu textos poéticos! Puts... o amor focado em seus sentidos metafóricos e singelos!
Formidável!
abraços meu amigo!
" [...] O amor ainda é a ventura egóica de habitar-se no outro, para um espírito cigano, é a estrada, é a sorte, feita e refeita no diagrama de estrelas, nas notas discretas da flauta; o amor não tem casa, o amor não mora [...]"
Tuas palavras fazem a alma imensar-se...
e como um canto, tocam a pele, o peito e deslizam sentidos e afetos...
Abraço grande a ti, David... que belos sejam os teus dias.
É uma viagem ler-te, David!
parabéns e obrigado!
(saudades tuas viu?!!)
prosa poética da melhor classe
:)
bjao david.
eaí meu caro, não posta mais não?
=)
mude de blog, cansei de lutar pelo uol,rs, dá uma olhada na casa nova.
e vê se posta!!!
beijão
vc me surpriende maninha;;;;
Caraca...
Muito bom teu texto, intenso e doce.
Amei.
Bjos!
Saudades... das tuas palavras que rasgam a pele feito uma cor bonita e áspera. Onde será esse silncio que se assentou em nossos olhos? saudades tuas. Beijos.
Que tudoooo...
Davi, parabens.
Que delicia de ler, faz a mente viajar.
Bjos no coração!
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