Passei da hora. Atrasado para a entrevista, descia as escadas de soslaio até atingir o umbral da porta, que encostada, mais parecia que fora ali enterrada à parede de bloco. Meus devaneios davam o título e o ilusório sentido para aquele desespero em formato de marcha. Só assim seria possível acreditar que marcada para às duas, fosse lá eu conseguir estar presente num espaço de dois últimos pequenos tempos de hora. Era o ponteiro grande o único que me interessava, ele era comprido, mais ágil, de passos largos. Tão imponente e com um ar tão certo que duvidar seria ateu, jogar na sarjeta um dogma do tempo. Descompassada e esguia tremulava a perna da calça, com movimentos sonoros raspados e amplitudes que fisgavam sem isca a perna traseira enquanto o passo, desligado de minha vontade, tinha a intenção de promover o encontro do vento frio rasteiro com o tornozelo, do couro desbotado com a breve lambida da bainha que já atingindo meados da canela, era obviamente desprovida de serventia. Era um roçar tão peralta que provocava um pressentimento de que iria rir-se. A camisa, imbuída daquele clima cinematográfico, fazia charme numa disputa entre botões casados romanceiros e o peito aberto aventureiro de gíria e sotaque amaneirado. Mantive-me clássico, afinal havia sim, um medo obstinado daquele convite incompatível com a manhã franzina que me dava pena. Entretanto, agora a tarde se anunciava da atmosfera pesada do sol ardendo e dos bares mal frequentados que se prostavam àquela avenida, contraste com a consciente ingenuidade que eu mantinha sem esforço de que seria entrevistado. Respondia a tantas perguntas, discursava sob o passeio estreito e procurava de perfil a lente das câmeras, nunca havia amado tanto os noticiários das Tvs locais. Disse ao repórter que além da cara que assumira o filme – um ar descontraído e empolgante – havia o de mais fantástico; a participação no elenco, de grande parte da população da cidade. Figuras estranhas de um ar cortez, madames, crianças curiosas, moças bem aparentadas e rapazes que exibiam-se com grosseiros movimentos desacostumados a toda aquela atuação, mas que de fato lhes conservara certa naturalidade. Meu nome aparecia no final do filme, nos caracteres dos créditos, e ainda com a última letra do primeiro esquecida pelo modo costumeiro de como se pronuncia. Assistente de produção, considerava-me não tão simplório, até porque era esse título algo um tanto vago. Cobria-me numa posição de avaliador dos conteúdos subliminares, como lhes digo: É notável! Dobrei a curva do posto e comecei a cortar o centro da cidade, nada de muito extenso, mas sentia cortá-lo com faca sangrando-lhe. A rua parecia de um movimento sublime, dos dias de festa de santo, carnaval ou mesmo das caravanas que se dirigiam ao enterro após ter havido o velório. Como o cemitério se localiza distante da rua da capela, a procissão dos mortos segue pelo centro implorando passagem, mergulhando tudo e todos num silêncio censurante e amargurado, um constrangimento tremendo para a rapaziada que ri pendurada na porta da escola. Após dobrar aqui, dobrar ali, aí começa o calvário. Sobe-se uma ladeira embriagada, envergonhando quase a todos com a presunção do revés do rabecão desenfreado sem estribeiras ladeira à baixo. As crianças que riem olhando para o chão são as que vão delirando nesse pensamento que nelas assume a missão de amenizar àquela íngreme escalada, como se representasse o retorno ao estado inicial da história, do cemitério à vida normal, das antigas andanças do finado pelas ruas da cidade. Avistei enfim a praça, um caminhão baú e a armação de aço onde se projetaria a tela. O filme seria exibido à noite com a pretensão da população prestigiá-lo. O diretor de pé logo a frente me saudou com reverente solfejo, ele ofegava enquanto delegava, minha tarefa era fácil, diferente de portar-me àquela reportagem: assistiria eu à entrevista enquanto tomaria conta da outra câmera que estava no canto em situação de repouso, agora estarrecida com minha chegada.
Sexta-feira, Junho 05, 2009
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6 comentários:
Incrivel.Simplesmente incrivel...
Adorei a jogo de palavas!Está realmente estupendo!
E quanto a nós,meros telespectdores,sentaremos em pequenos bancos e assistiremos as cenas da corrida de nós mesmos.
Te indiquei um selo,passa lá no meu canto pra pegar!
Abraços poeta!
Kara, impressionante a forma com que tu percebe os minimos detalhes e os descreve transmitindo perfeitamente a sensações, euforia, ansiedade...Não é para qualquer um, isso se chama talento e cabe a mim admirar !
Ta indo longe, e pelo jeito, deixando os limites para tras !
abraço Davi... ops, David ; )
Concordo com o Fábio.
Esse texto tá íncrivel David,os detalhes,passagens,sentimentos,tudo muito intenso,nossa ta bom demais.
É bom demais de ler.Parabéns!
Grande beijo.
Puts,
Gostei muito do que você escreveu, o transaporte de sentimentos, os detalhes,somos os expectadores de nossas próprias vidas.
Depois fala de mim... tá escrevendo pra CARALHO!
abraços
Incrivel.
Jogo de palavras, detalhes, sensações...
realmente incrivel..
Parabéns!
Beijo
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