Quinta-feira, Junho 11, 2009

Descobrindo

Digo que enquanto pairava à beira do abismo, ele era tomado por uma sensação de flores, um desconforto absoluto, seu estado de vertigem de quem arranca pétalas. Sensível de morrer, aterrorizado pela sua vida humana. Tinha ele, cuidados de bicho. De um pulo leve, preso no giro da mão na alça da porta até os pés alcançarem o chão, tocou-o com mérito espetacular enquanto as janelas num movimento de esteira lhe mostravam rapidamente a formosa diversidade urbana através das caras sonolentas que olhavam pelo vidro, e o ônibus carregando toda essa riqueza, abandonava ali seu ponto. Fumando…, a fumaça mesclada ao olhar vago, infuso, trazia a intenção de sinalizar o veredito que lhe tinha propriamente dado ao levantar-se pesado de mistérios: sentenciava a reclusão. E assim começava o dia. Elidiria como o sol, deixava cair a chuva e quando noite, dizia como a lua diz. Queria sentir o frio, mas quanto mais frio, tão só o sentia. Pensava profundamente no que se passava na cabeça do astronauta, mergulhava naquele vazio espacial. Diria a crítica: existencial. Elidiria não como todo mundo diz, não como todo mundo ri, era tão mais humano como o homem bicho. Natural. Desejava ouvir a voz que em sua imaginação era remontada pelas palavras mais usadas por aquela juventude e o sotaque que habitava aquela região, encantou-se ele após tirar do gancho a maravilha que lhe ocorria no final do dia, o contraste das vozes e a surpresa que derrubava por terra o que antes havia sido imaginado, lhe apresentando uma doçura inimaginável na voz. Agora, a falta hoje fatigava, era o dia de uma cor especial, mas de uma aurora impedida – como paralisada por um desastre da natureza – pelo ar cotidiano que soprava pesadamente as mesmas coisas de sempre.

8 comentários:

KAtheRyNA disse...

Vc escreve muito bem mesmo...
Parabens pelo blog!

Sandra Botelho disse...

Puxa...você se inspira em Machado de Assis?
Tem o mesmo estilo.
Excelente texto.
Bjos.

Dani Santos disse...

A sensibilidade da vida toda. do humano demais que há por trás de olhos, tatos, sensações infindas. O relógio do tempo a lançar fora os dias, que correm, insípidos. A aspereza das mãos a tocar as flores. restos de silêncios talvez. como o dia que passa, como as horas, o tempo, a voz, a vez, a vida...

Guilherme disse...

A mistura de sentimentos, algo real, detalhes muitas vezes imperceptíveis, mas sempre presentes. Só abrirmos os olhos e termos um pouco de sensibilidade que notamos detalhes tão formidáveis como na sua escrita.

parabéns

Gaby Soncini disse...

Excelente!

Imagino detalhe por detalhe.

Grande Beijo!

.Dazinha. disse...

Quando perdeu o peso do cotidiano, tudo tornou-se levemente sem importância, e insuportavel de ser vivído.

Escreve tão bem prosa quanto poesia, adorei!

Bjo

Thais Michele disse...

Belo texto...
"Digo que enquanto pairava à beira do abismo, ele era tomado por uma sensação de flores (...)"
fiquei a sentir essa sensação de flores...


adorei!
beijo

Dani Santos disse...

Hum, voltei aqui a reler tuas palavras... e me veio a lembrança do filme "Instintos", não me lembro quem é o diretor, mas é muito bom, quebra de paradigmas, certezas, e um olhar do homem às suas origens, à sensibilidade que lhe vêm das suas raízes.